o rum e o refúgio

Em uma das cenas mais bonitas do todo bonito “35 Doses de Rum”, um homem diz para sua filha que eles têm absolutamente tudo o que precisam dentro da casa. Talvez tenham, de fato, quase tudo: afeto, liberdade, livros, música, comida e as memórias.

Pai e filha vivem sozinhos num subúrbio de Paris, e só aos poucos a diretora Claire Denis, uma francesa de 61 anos, conta da morte da mãe, da relação despedaçada do viúvo silencioso com a motorista de táxi que mora ao lado, da barreira que a menina impõe ao amor, do vizinho que ameaça ir embora numa atitude de quase desespero. Conta (ou sugere) das razões de pai, filha, motorista de táxi e vizinho e aponta (ou sugere) que as razões deles são um pouco como as razões de todos nós: o medo do envolvimento, a dor da perda, o desequilíbrio dos traumas, a vontade do encontro, essas coisas.

O lar deles, como os verdadeiros lares, é o abrigo que protege da solidão da cidade grande, dos caminhos tortos do trem, do mau humor cuspido no trânsito (acontece), dos vazios das expectativas desfeitas (sempre elas), das tristezas acumuladas no tempo, dos finais, das ausências (inclusive as dos vivos, que são quase sempre mais difíceis do que a falta que fazem os que já morreram) e da própria morte.

Seus silêncios dizem quase tudo, como dizem entre si – sem palavras, ou com poucas – aqueles que atingiram a beleza de não precisar dizer da raiva ou da saudade, do desejo ou da tristeza, do amor ou das necessidades, raiva, saudade, desejo, tristeza, amor e necessidade subentendidos, entendidos e compreendidos.

São como talvez devêssemos ser todos, também, afetuosos, silenciosos, simples e tranquilos, verdadeiros, sinceros e presentes, quase nunca indelicados, indiferentes ou reticentes (porque os indelicados, indiferentes ou reticentes não cabem no afeto, na simplicidade e na tranquilidade; nem nos céus ou nas canções eles cabem, só no estômago pulsando de raiva, no cérebro doendo de saudade, no fígado encharcado de decepção).

Os personagens de “35 Doses de Rum” compartilham seu sentimento de desconforto diante da realidade, como fazem os amigos de verdade. Agem como cúmplices diante do gato morto que vai pro lixo, do flerte e da dor de cotovelo embaladas por “Nightshift” (e aquela melodia tristíssima dos Commodores, tristíssima como a expressão da personagem que insiste num amor não correspondido), do trabalho, da panela nova, da faxina catártica, do carro que pifa numa noite de chuva em que a música compensa até as divergências.

O filme é todo de movimentos suaves, corpos e objetos dançando a dança sutil dos encontros marcantes, aqueles que a gente carrega quando vai embora (e deixa um pedaço com eles). É como são as melhores coisas do mundo, como a noite em que havia um violão e nenhuma expectativa. É como o tempo em que não havia mais nada de importante, só os dois. É como são as madrugadas que a gente celebra com o melhor vinho ou com as 35 doses de rum destinadas apenas às ocasiões mais importantes da vida.

(Texto publicado no Caderno 2 de A Gazeta neste sábado)

uma história de carnaval (e depois)

Da primeira vez que se viram era sábado de carnaval, exatamente como agora, fevereiro, cores, pequenos pecados, chuva (quase nada), suor (um pouco) e cerveja (bastante), toda a música do mundo reduzida (tragédia) a três hits ruins e duas dancinhas de gosto duvidoso, as fantasias todas fora do armário e a imaginação (delícia) no poder. O sol de horas antes ainda determinava o peso do ar e os dois caminhavam pela vida como manda o poeta latino com nome de avô querido: seguindo hoje sem deixar nada para amanhã.

Ele andava às voltas com as mudanças, óculos novos, outro endereço, um projeto inteiro a construir pela frente e uma pedra robusta em cima do passado. Exibia um modo suave, gingado e devagar, como se dançasse ao som de um compasso imaginário que misturava Marvin Gaye com Cartola, The Shine of Dried Electric Leaves com a música feita nas calçadas da Havana ou nas esquinas de Porto Rico, Chet Baker (sempre) com algo que não sei bem se Elza Soares, Luciana Souza ou Marina de la Riva, Jorge Ben (sempre, do mesmo jeito) com Julieta Venegas e uma pitada a mais de malandragem.

“Onde é que você se meteu
antes de chegar na roda?”

Ela também tentava enterrar algumas memórias, colocar sossego no lugar das turbulências, voltar a ver o mundo com os olhos da delicadeza, retomar a capacidade de compreensão das diferenças que, talvez, estivesse perdida perto dali. Com o filme daquela noite tinha reaprendido que as melhores escolhas são aquelas movidas pelo amor e que as marcas do vivemos – de grande e de pequeno, de feliz e de trágico, de bonito e de feio, da viagem pela Europa ao pastel da feira de Jardim da Penha, dos adeuses às descobertas – interferem decisivamente nas respostas que damos às perguntas da vida.

Respondiam às perguntas da vida com as próprias marcas, os adeuses e as descobertas. Cada um trilhava seu caminho, sem a menor desconfiança do tanto que teriam nos meses seguintes, quantas canções, quantos sorrisos, quantas madrugadas, quantos silêncios e palavras inventadas, quantos braços de um em volta do corpo do outro, e que tanto de dissonâncias, desencontros, incômodos, ausências, dúvidas, cansaços e distâncias estavam à espera daquela história que começava sem que ninguém percebesse (nem eles).

Tinham em comum a prática dos começos despercebidos, ele mergulhado nas obrigações urgentes, nos prazeres imediatos e no hábito de não estar, ela desfeita e descrente diante da aposta malsucedida num homem de olhos límpidos e coração turvo, os dois meio alheios à festa que se fazia nos quatro cantos do país (menos no canto deles). Não faziam ideia que haveria outras tantas noites igualmente alheias ao que passava do lado de fora, assentadas dentro do mundo silencioso e bambo que construíram desde o instante em que ele pediu desculpas por um deslize que nem vinha ao caso e ela se encantou pelo balanço dele, em pleno sábado de carnaval.

(crônica publicada no Caderno 2 do último sábado)