ah…

Ah, esse cara tem me consumido
A mim e a tudo que eu quis
Com seus olhinhos infantis
Com os olhos de um bandido
Ah, esse cara tem me consumido
A mim e a tudo que eu quis
Com seus olhinhos infantis
Com os olhos de um bandido
Ele está na minha vida porque quer
Eu estou para o que der e vier
Ele chega ao anoitecer
Quando vem a madrugada
Ele some
Ele é quem quer
Ele é um homem e eu sou apenas uma mulher

chico buarque, o dono do dia

(Com o perdão da tietagem barata, um texto de setembro de 2006, em homenagem ao aniversário do mestre)

foto de Lia Costa Carvalho (http://www.flickr.com/photos/liacostacarvalho)

Cresci ouvindo música brasileira de todo o tipo, a agulha do toca-discos da sala chiando enquanto eu existia ou brincava no quarto. Tinha pouca ou nenhuma idéia do que viria pela frente, dos projetos, das perspectivas, das perdas e dos amores, das palavras daqui, dos sucessos e das desafetos, e toda a tragédia do mundo, nos meus sete anos de idade, estava no Brejo da Cruz.

Crianças alucinadas que comiam luz, meninos desencarnados ficando azuis e coisas do tipo assombravam as minhas noites, como mulas sem cabeça ou monstros debaixo da cama, alimentavam pesadelos que eu preferia guardar em silêncio com medo de que de fato existissem, de que fossem reais como o pneu furado da última semana e não mais frases e acordes de sétimas e sustenidos.

De qualquer maneira, agradeço profundamente por minha mãe limpar os móveis, arrumar as estantes e fazer o almoço ouvindo aquelas canções, porque certamente plantou ali, e talvez nem saiba, o amor pela música que alimento dia e noite, no riso e no violão das insônias, nas “Bachianas” todas, em “Todo Sentimento”, em “Como Dois e Dois” e “20 Anos Blue”, no “Elis e Tom”, em “For no One”, nos Smiths e em Ella, nas novidades e nas relíquias – e mais ainda naquela noite, quando vi pela terceira vez na vida um show do Chico Buarque.

(Pausa para suspirar)

Ele subiu ao palco quase pontualmente, com aquele seu jeito desconcertado de existir e, não fossem os garçons que passavam de um lado para o outro, a noite teria sido perfeita – eu, aliás, não entendo a lógica do público destes tempos, um entra-e-sai desenfreado, um pede-e-paga-mais-tarde frenético, um atende-o-celular-só-um-pouquinho-pode-falar que banaliza a arte, desrespeita o artista e irrita o vizinho.

Fora isso, houve canções na medida certa, vinho tinto e conversa em dia, lembranças de 99 e 87, saudades de antes e ausência daquela hora; houve “Imagina”, “João e Maria” e “Sem Compromisso” no bis, houve “Porque Era Ela, Porque Era Eu”, aquela da menina saindo do mar (e não é que ele teve seu momento Cicarelli?) e até (adoro) “A História de Lily Braun”, o homem dos sonhos dela aparecendo no dancing (e aqueles olhos de comer fotografia…).

Meus medos eram já outros, não parar direito, não sonhar direito, não criar direito, não ouvir direito, não fazer o que deve ser feito, ser ausente, reticente, inconseqüente ou displicente, ter apego, descrença ou dor nas costas, excesso de peso ou falta de perspectiva. O “Brejo da Cruz” não passava da canção dois daquele disco de capa vermelha – que, por mania ou precaução, prefiro pular. Pode rir, eu mereço.

a música do dia

Porque nas últimas horas voltei a ouvir o disco um do Chico Buarque e ainda me encanto. Porque tem mais samba no encontro que na espera. Porque o bom samba não tem lugar nem hora e, se todo mundo sambasse, seria tão fácil viver. Além do mais, o texto do encarte (copiado aí embaixo) é ótimo, né?

“Pouco tenho a dizer além do que vai nestes sambas. De ‘Tem mais samba’ a ‘Você não ouviu’ resumo três anos da minha música. E nestas linhas eu pretendia resumir a origem de tudo isso. Mas o samba chega à gente por caminhos longos e estranhos, sem maiores explicações. A música talvez já estivesse nos balões de junho, no canto da lavadeira, no futebol de rua…

É preciso confessar que a experiência com a música de ‘Morte e vida Severina’, devo muito do que aí está. Aquele trabalho garantiu-me que melodia e letra devem e podem formar um só corpo. Assim foi que, procurei frear o orgulho das melodias, casando-as, por exemplo, ao fraseado e repetição de ‘Pedro pedreiro’, saudosismo e expectativa de ‘Olê, olá’, angústia e ironia de ‘Ela e sua janela’, alegria e ingenuidade de ‘A banda’ etc. Por outro lado a experiência em partes musicais (sem letra) para teatro e cinema, provou-me a importância do estudo e da pesquisa musical, nunca como ostentação e afastamento do ‘popular’, mas sim como contribuição ao mesmo.

Quanto à gravação em si, muito se deve à dedicação e talento do Toquinho, violonista e amigo de primeira. Franco e Vergueiro foram palpiteiros oportunos, Mané Berimbau com seus braços urgentes foi um produtor eficiente, enquanto que Mug assistiu a tudo com santa seriedade. Enfim, cabe salientar a importância do limão galego para a voz rouca de cigarros, preocupações e gols do Fluminense (só parei de chupar limão para tirar fotografias).

Sem mais, um abraço e até a próxima.”

Chico Buarque

porque são bonitas as canções, parte dois

Era tarde, e até alguns dias antes ainda doía o vazio do ponto final daquela história.

“Ouve, fecha os olhos, meu amor. É noite ainda, que silêncio. E nós dois na tristeza de depois. A contemplar o grande céu do adeus. Ah, não existe paz quando o adeus existe. E é tão triste o nosso amor. Vem comigo, em silêncio. Vem olhar esta noite amanhecer. Iluminar os nossos passos tão sozinhos, todos os caminhos, todos os carinhos. Vem raiando a madrugada”

Tinha decidido ficar quieta com seu vazio até que fosse possível sair de um círculo sem saída e chegar a um lugar sem tantas mágoas. Mas aquele sorriso inesperado atrapalhava os seus propósitos, fazia querer arriscar de novo, de outro jeito, um outro amor, quem sabe. Então ouvia no rádio de pilha a canção que embalava a alegria repentina.

“Porque eu sou tímido e teve um negócio de você perguntar o meu signo quando não havia signo nenhum. Escorpião, Sagitário, não sei que lá. Ficou um papo de otário, um papo, ia sendo bom. É tão difícil, tão simples, é tão difícil, tão fácil. De repente ser uma coisa tão grande da maior importância”

Ele dizia que não acreditava nem em Deus, menos ainda em horóscopo, mas ela insistiu em perguntar. Era importante, mesmo que não parecesse, mesmo que a bebida tivesse passado da conta, mesmo que sentisse vergonha das manias de adolescente (e falar de horóscopo era indiscutivelmente mania de adolescente), mesmo que a razão, a toda hora, dissesse “sai daí, menina”.

Assim, de repente.

“Sabia, gosto de você chegar assim. Arrancando páginas dentro de mim, desde o primeiro dia. Sabia, me apagando filmes geniais, rebobinando o século, meus velhos carnavais, minha melancolia. Sabia, que você ia trazer seus instrumentos, invadir minha cabeça. Onde um dia tocava uma orquestra. Pra companhia dançar. Sabia, que ia acontecer você, um dia, e claro que já não me valeria nada tudo o que eu sabia. Um dia”

Era humana, repetia o tempo inteiro para si mesma, e o que torna humanos os humanos, por mais contraditório que pareça, é às vezes perder a razão. Perto dele, perdia, desviava o olhar, e queria dizer mil coisas, mas conseguia ficar apenas no que era superficial, e tentava ser simpática no minuto seguinte, e falava alto, pondo vírgulas antes do e, e o vestido sambando um pouco na parte de trás, e ela rindo feito boba quando ele passava.

“Ando tanto tempo a perguntar. porque esperar tanto assim de alguém. Percorrendo espaços no mesmo lugar. Não sei a quanto tempo estou a te buscar. Num segundo eu vou sabendo e percebendo o seu sabor. Sem ter medo estou correndo contra o vento sem nenhum rancor”

Aumentou o som, e ficou ali, abraçando a almofada com cara de sol.

“Vamos fugir deste lugar, baby. Vamos fugir. Tô cansado de esperar. que você me carregue. Vamos fugir pra outro lugar, baby. Vamos fugir. Pra onde quer que você vá. Que você me carregue. [...] Vamos fugir pra onde haja um tobogã, onde a gente escorregue. [...] Todo dia de manhã, flores que a gente regue. Uma banda de maçã, outra banda de reggae [...]”

As cinco canções, pela ordem:
Canção do Amanhecer, Edu Lobo
Da Maior Importância, Caetano Veloso
Lola, Chico Buarque
Tanto Tempo, Bebel Gilberto
Vamos Fugir, Gilberto Gil

(Vitória, 20 de fevereiro de 2005. Mas podia ser hoje)