relativices

Ilustração da Mariana Mauro (www.flickr.com/photos/marianamauro)

Já escrevi disso, mas não custa repetir: o exercício dos dias difíceis é relativizar, negar o caráter absoluto das coisas e tratá-las, todas, como se houvesse dezenas de verdades, boas e más, num único fato.

Porque, em algum momento da vida, tempo e distância transformam angústia em nada, insegurança em alívio, o pior dos ressentimentos numa lembrança vaga e disforme, um monstro gigante num ciuminho inofensivo, uma paixão aparentemente incurável num amontoado de memórias brandas. Daí as dores doem menos, os pesos pesam menos e, depois de algumas horas de sono, dá até pra reconhecer o esforço alheio de dizer, ir, deixar, perdoar ou ficar, o tamanho do passo que parece pequeno, mas quem sabe tenha sido imenso.

É Física pura, Einsten já dizia: dois pontos de vista diferentes oferecem visões diversas, e ambas perfeitamente aceitáveis, de um mesmo objeto. Do mesmo modo que altura, profundidade, distância, gravidade e eletrodinâmica estão sujeitos às leis que regem a matéria, amor, trabalho, esperança, indiferença, vazio, riso, coração partido, alegria, raiva ou afeto têm aparência e essência determinadas pela passagem do tempo e pela curvatura do espaço.

(Segundo Marcelo Gleiser, neste texto aqui, a certa altura da História, os físicos passaram a acreditar que a presença de uma massa, seja ela o Sol, a gente ou uma bola de tênis, deforma o espaço e afeta a passagem do tempo; quanto mais matéria, maior a curvatura do espaço e mais lenta a passagem do tempo).

Pelo sim, pelo não, pelo talvez ou pelo muito pelo contrário, em algum momento da vida, o que nasceu intenção vira projeto e depois hábito, palavras agarradas no teclado de computador viram texto e quem sabe livro, saudade vira cansaço, e então a gente quer parar e depois seguir, desejar, desejar mais, desejar menos e depois cansar, entender, duvidar, passar dos limites e dormir, alimentar uma paixão platônica, viver uma real (e tem dias que ai), emagrecer e fazer pregas nas calças, engordar de novo, rir de si mesmo ou chorar por causa das próprias decisões e das ausências e das canções, “pagar pra ver o invisível e depois enxergar que é uma pena”.

Depois de um tempo e a certa distância, até o rancor vira outra coisa. Daí a verdade feita de saudade, ciúme, cansaço, ansiedade e apego vira a percepção de que rupturas são indispensáveis, de que coragem e criatividade fazem melhor ao mundo que conformismo. Daí, depois de uns meses (às vezes anos), saudade, vazio e tristeza passam, o inverno acaba, as aflições ficam menores e a gente enfim aprende a relativizar, negar o caráter absoluto das coisas e tratá-las, todas, como se houvesse dezenas de verdades, boas e más, num único fato.

time is on my side (yes, it is)

Quanta coisa cabe no tempo? Doze meses de um ano, dezenove dias de um mês, uma vida inteira de ginga, sereno e palavras inventadas? Quanta coisa cabe no tempo? A arte da fuga, a arte de escutar, meia dúzia de balanços, uma prateleira toda de filmes e os quadros pendurados na parede imaginária da existência? Quanta coisa cabe no tempo? Vírgulas, pontos finais, exclamações e as interrogações de um mundo silencioso à espera de respostas? Quanta coisa cabe no tempo? Saudade, apego, braço, desejo, café, chá de sumiço, vodca, ressaca, cheiro no travesseiro e coração partido? Quanta coisa cabe? Tempo? Quanto? Tanto? Cabe você no tempo?

ainda a física, agora sobre o tempo

(um texto de janeiro)

Há quem diga que o tempo anda passando rápido demais, que o ano voou, que outro dia era o século passado, que o mundo de agora gira mais rápido que o de antes e em breve estaremos no carnaval, depois futebol, eleição, feriados, junho, julho, agosto, primavera, Natal e, outra vez, acabou-se. Há quem diga que o tempo parece estar com pressa. A Física nega, garante que aconteceram mais ou menos tantas coisas em 2009 quanto nos anos anteriores e que a percepção contrária que temos não se aplica às leis de Einstein e companhia.

A Física defende que existem duas maneiras de perceber o tempo e a rapidez (ou não) do seu passar. No tempo psicológico – a primeira das duas maneiras, segundo o físico Marcelo Gleiser em A Pressa do Tempo -, as coisas acontecem uma depois das outras, sucessivamente. Os números ajudam a contá-las e colocá-las em ordem e a lembrança, antes de tudo, nos faz saber que elas de fato existiram. Logo, a percepção do tempo depende basicamente da memória.

Se nossas memórias desaparecessem por completo, voltaríamos a perceber o mundo como bebês, com dias imensamente longos e lembranças sendo acumuladas diante das novidades da vida, o rosto da mãe depois os outros, as cores e depois os sorrisos, as canções de ninar e depois as outras, as alegrias e, um dia, as decepções. O resumo da ópera: quanto mais coisas temos para descobrir e mais memórias para criar, mais devagar percebemos a passagem do tempo.

No tempo físico é diferente. Um segundo, a unidade universal de tempo para a humanidade, são 9.192.631.770 oscilações entre dois níveis do átomo de césio-133, desde sempre, há 13,7 bilhões de anos. O presente vira passado, o futuro vira presente e deste modo seguimos. Então seguimos um dia com a impressão de que falta espaço na agenda pra dar conta do mundo e no outro com a ideia de que o passar dos dias ensina mais que primário, médio, graduação e MBA juntos. Então seguimos um dia com a compreensão dos excessos e no outro com o desejo de voltar atrás para consertar os amores que deram errado, dormir o sono dos justos, pedalar pelo campo, escrever poemas, talhar rostos desconhecidos em madeira nobre ou nem.

Então seguimos assim, movidos pelo tempo dos físicos, pelo tempo dos sentimentais, pelo tempo da delicadeza. Tempo substantivo masculino, período contínuo e indefinido no qual os eventos se sucedem, distância, espaço, objeto, intervalo, definição, teoria. Tempo que são 9.192.631.770 oscilações entre dois níveis do átomo de césio-133, há 13,7 bilhões de anos. Tempo que há quem diga que anda passando rápido demais, ano que voou, século passado que era ontem, mundo que gira mais rápido que o de antes e daqui a pouco estaremos no carnaval, depois futebol, eleição, feriados, junho, julho, agosto, primavera, Natal e, outra vez, acabou-se.

uma pausa de mil compassos (hoje eu quero)

Às vezes é preciso parar, nem que seja por uns dias. Parar para ouvir de verdade aquela canção, porque nada é pra já e o amor não tem pressa, pode esperar em silêncio, milênios, milênios, no ar. Parar para olhar mais para os outros e menos pro umbigo, entender que a pele, os olhos e os ossos precisam de descanso, aceitar a ideia verdadeira, certeira, de que um olhar, um sinal, uma palavra, um segredo, tudo, tudo têm seu tempo, inclusive o próprio tempo. Parar para digerir as escolhas, as boas novas, as chegadas e as partidas, o silêncio que virou samba, a corda bamba que virou valsa.

Às vezes é preciso parar, nem que seja por uns dias. Parar para lembrar que o tempo faz bem, embora falte demais, corra demais, traga rugas e desgaste amores, embora ande – alguns de vocês sabem – segundo critérios obscuros que não levam em conta desejo, querer, vontade ou qualquer outro substantivo que porventura tenha um sentido semelhante. Parar para celebrar o tempo, tambor de todos os ritmos, dois, compasso, relógio, respiração, 100 gramas de areia caindo na ampulheta azul ou as horas que Harry Haller desperdiçava com sua maneira arredia de ser.

Daí, quando a gente menos espera, percebe, parado como um dois de paus, que deu pra gostar do tempo. Gostar, simplesmente, e precisar parar, nem que seja por uns dias.