as palavras e as lavadeiras

“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”.

Graciliano Ramos

os dogons e o silêncio

Descobri estes dias que existe no Mali e em Burkina Fasso, dois países que ficam em algum ponto que não sei bem da África ocidental, um povo conhecido como dogon. Cada dogon acredita ter nascido com uma quantidade determinada de palavras na barriga e, durante a vida, gasta o verbo guardado dentro com os amores, os amigos, a oposição, os irmãos e os vizinhos.

Um dia, quando o estoque acaba, o sujeito morre.

Os dogons – a tribo de camponeses, artistas e feiticeiros teria cerca de 200 mil integrantes espalhados por diversas aldeias – são também grandes conhecedores da astronomia e do início de todas as coisas, e não deixa de ser curioso que a concepção de vida de um povo inteiro comece e do mesmo jeito termine: com o silêncio.

O silêncio, como o tempo e as dores mais profundas, ensina um bocado de coisas. Faz voltar a rir depois de meses em que nada soava engraçado, faz voltar a confiar na humanidade um tempo depois da tarde em que você olhou nos olhos de um homem e ganhou um par de mentiras em troca, faz voltar a ouvir as canções daquele disco da capa branca e só o nome do cantor assinado no meio, Irene ri, o barco vazio, um objeto não identificado, o marinheiro só, os argonautas, a Carolina dos olhos fundos e a dor de todo este mundo, um objeto não identificado, Salvador, mil novecentos e sessenta e nove, que el mundo fué y será una porqueria ya lo sé, um objeto não identificado.

O silêncio faz voltar no tempo.

O silêncio, como as contradições e as decepções mais duras, ensina um bocado de coisas. Refaz os planos depois das expectativas desfeitas, refaz a pose depois da queda ou da vertigem, refaz o caminho com mala, cuia, cara e coragem quando parece que é o que precisa ser feito. O silêncio, como o tempo, refaz o que precisa ser refeito, olhar, parede, crença, sentido, prazer, história, vontade, saúde, quase tudo. O silêncio, como dizia o mestre Guimarães Rosa, é a gente mesmo, demais.

Pois, para os dogons, ao que parece, o silêncio é a gente mesmo demais e muito mais. Ele vivem com apenas 40 centímetros de chuva por ano e temperaturas de até 60 graus centígrados, entre casas de pedra e barro cobertas de folhas que ajudam a amenizar o calor escaldante e pequenos celeiros que armazenam os grãos, as espigas de milho, as cebolas, o amendoim, o algodão e o fumo que produzem.

Descendem, possivelmente, dos habitantes de um planeta que orbita ao redor da estrela Sírius e que teriam aterrissado na Terra em eras remotas, inaugurando a civilização. Transmitem suas tradições de geração em geração há milhares de anos, realizam rituais para a estrela que acreditam ser a origem de tudo. E nascem – santa evolução, Batman – com uma quantidade de palavras dentro da barriga, que acaba quando chega o dia de morrer, e eles então morrem em silêncio, porque não têm mais nada pra dizer.

[um texto de maio de 2009, em homenagem à minha garganta, que simplesmente apagou, sem aviso ou razão aparente]

silêncios

Silêncios impostos são maus: confundem as maiores compreensões, balançam as melhores intenções, arranham os afetos mais bonitos, como fazem as imposições de qualquer tipo, modelo, ano e gênero. Silêncios impostos são terríveis. Silêncios consentidos são o contrário: bons como um dia de sol, bons como chocolate com frutas vermelhas, bons como aquele Chet Baker em Montmartre 1979 volume um, o trompete soprando o sentimento todo do mundo em sete notas, e mais nada. Silêncios consentidos são ótimos.

18 palavras e mais umas

Tem palavras que eu gosto de graça. Canção é uma delas. Ordinária é outra, comum, habitual, repete, repete, regular, constante. Instante é boa, ao contrário de medíocre, que acho feia. Prefiro terrível, ou então ridícula, que a minha afilhada menor pronunciava ri-dí-cu-na, com N, sem ter muita ideia do que significava, do jeito mais fofo do mundo. Mundo, aliás, é outra palavra simpática, que nem coisa, que cabe em qualquer lugar e quase nunca decepciona. Espera também é boa, embora as esperas sejam em si um troço dispensável.

(Troço é também uma palavra incrível, não?).

Razão é uma palavra que eu gosto de graça, que nem canção, ordinária, planta, pepperoni, tatuagem, liberdade, chocolate, silêncio e Carlos Drummond de Andrade. Tempo é outra palavra ótima, enquanto teu é o pronome mais bonito de todos. Saudade é boa, mas é ruim. Tagarelice é divertida. Blablablá é melhor ainda.

Gosto de compreensão, da palavra e da coisa em si, a capacidade de andar junto apesar do descompasso, a percepção de que aceitar às vezes é preciso e funciona melhor que qualquer força (pena que tem gente que abusa). Força eu não gosto, mas acaso é uma palavra bonita, que quando vira real assusta ao mesmo tempo em que diverte, desordena ao mesmo tempo em que faz voltar a sorrir, escancara a necessidade de pintar a parede de cor de abóbora e encontrar outro sentido, diferente daquele.

Amigo é palavra boa e coisa melhor ainda, um olho pra ver o Rei e o Erasmo emocionados no Maracanã, um ombro para ouvir lamentos, um riso pra rir quando os lamentos terminam, dois ouvidos e uma boca pra tratar do existencialismo e das inexistências, pra cantar desafinado, pra falar a verdade e às vezes pra ficar em silêncio, pra rezar pela gente e levar um pouco da dor irremediável de perder o rumo, telefonar de madrugada, celebrar o nada, fazer parte – como no poema – do mundo que a gente tremulamente constrói.

(O poeta diz que eles se tornam alicerces do encanto pela vida).

Encanto é uma palavra que eu gosto de graça, o sorriso da minha amiga diante das histórias que ouve, a capacidade que ela tem de dar um valor imenso às coisas que antes pareciam pequenas, o modo como o futebol alegra os domingos dela e os afetos preenchem as suas ausências. Vazio tem um quê de bom, por pior que seja.

Finais acontecem, mas bonita mesmo é a palavra começo, um beijo demorado, uma conversa de uma madrugada inteira e um monte de discos em volta, uma garrafa de vinho, descobrir as preferências e os desgostos e as vírgulas da vida, uma viagem ou o primeiro parágrafo daquele livro em que, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar a tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.

dia de dogon

Acordei pensando nos dogons, aquele povo que vive na África ocidental e acredita ter nascido com uma quantidade determinada de palavras na barriga. Durante a vida, os dogons gastam o verbo guardado dentro com os amores, os amigos, a oposição, os discursos, os irmãos e os vizinhos. Um dia, quando o estoque acaba, eles morrem. Morrem em silêncio, porque não têm absolutamente mais nada pra dizer.

São camponeses, artistas, feiticeiros e também grandes conhecedores da astronomia e do início de todas as coisas. Vivem com apenas 40 centímetros de chuva por ano e temperaturas de até 60 graus centígrados, entre casas de pedra e barro cobertas de folhas que ajudam a amenizar o calor escaldante e pequenos celeiros que armazenam os grãos, as espigas de milho, as cebolas, o amendoim, o algodão e o fumo que produzem.

Descendem dos habitantes de um planeta que orbita ao redor da estrela Sírius e que teriam aterrissado na Terra em eras remotas, inaugurando a civilização. Transmitem suas tradições de geração em geração e realizam rituais para a estrela que acreditam ser a origem de tudo, e ainda me espanta o fato de a concepção de vida de um povo inteiro começar e terminar do mesmo jeito: no silêncio.

Ponto pra eles.

e, por fim, uma da série leituras – seis ou treze coisas que aprendi sozinho

(um poema do manoel de barrros)

1
Gravata de urubu não tem cor
Fincando na sombra um prego ermo, ele nasce
Luar em cima de casa exorta cachorro
Em perna de mosca salobra as águas se cristalizam
Besouros não ocupam asas para andar sobre fezes
Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina
No osso da fala dos loucos têm lírios

3
Tem 4 teorias de árvore que eu conheço
Primeira: que arbusto de monturo aguenta mais formiga
Segunda: que uma planta de borra produz frutos ardentes
Terceira: nas plantas que vingam por rachaduras lavra um poder mais lúbrico de antros
Quarta: que há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes

7
Uma chuva é íntima
Se o homem a vê de uma parede umedecida de moscas
Se aparecem besouros nas folhagens
Se as lagartixas se fixam nos espelhos
Se as cigarras se perdem de amor pelas árvores
E o escuro se umedeça em nosso corpo

9
Em passar sua vagínula sobre as pobres coisas do chão, a lesma deixa risquinhos líquidos…
A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre as palavras
Neste coito com letras
Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-se
Na avidez de deserto que é a vida de uma pedra a lesma escorre…
Ela fode a pedra
Ela precisa desse deserto para viver

11
Que a palavra parede não seja símbolo de obstáculos à liberdade
Nem de desejos reprimidos, nem de proibições na infância etc
(Essas coisas que acham os reveladores de arcanos mentais)
Não
Parede que me seduz é de tijolo, adobe preposto ao abdomen de uma casa
Eu tenho um gosto rasteiro de ir por reentrâncias
Baixar em rachaduras de paredes por frinchas, por gretas – com lascívia de hera
Sobre o tijolo ser um lábio cego
Tal um verme que iluminasse

12
Seu França não presta pra nada
Só pra tocar violão
De beber água no chapéu as formigas já sabem quem ele é
Não presta pra nada
Mesmo que dizer:
- Povo que gosta de resto de sopa é mosca
Disse que precisa de não ser ninguém toda vida
De ser o nada desenvolvido
E disse que o artista tem origem nesse ato suicida

13
Lugar em que há decadência
Em que as casas começam a morrer e são habitadas por morcegos
Em que os capins lhes entram, aos homens, casas portas a dentro
Em que os capins lhes subam pernas acima, seres a dentro
Luares encontrarão só pedras mendigos cachorros
Terrenos sitiados pelo abandono, apropriados à indigência
Onde os homens terão a força da indigência
E as ruínas darão frutos

das coisas inconfessáveis

Primeiro é preciso desprendimento, deixar de lado a vergonha e o peso, esquecer censuras, reprimendas, reprovações e repreensões, acreditar com o corpo inteiro na ideia de que a palavra diversão, como a música e os dias de sol, só pode ter um sentido bom, nunca o contrário. Depois é preciso humor, investir no riso e no esquecimento (a vida tem um pouco de literatura, ou muito), confiar com a cabeça inteira na certeza de que pouca coisa na vida facilita mais o resto todo do que achar graça de si mesmo.

Daí fica fácil. Você sorri, acerta a coluna, respira fundo e conta, de uma maneira mais ou menos bonita, de um jeito mais ou menos complicado, de um modo mais ou menos ligeiro, racional e objetivo. Conta que não vive sem Lulu Santos e Zizi Possi (menos as versões pro italiano) ou que adora “Jaded” do Aerosmith (inclusive o refrãozinho gago), que ouve, dança e sabe absolutamente todas as letras das Spice Girls ou, sendo sincero como não se pode ser, que não perde um show dos Engenheiros do Hawaii.

Conta que por ele você é que nem aquela canção do tango no teto, menos a parte de tomar banho gelado no inverno. Conta que sente saudades do sotaque dele, dos óculos, da camiseta de algodão e das cuecas à mostra pra jogar charme. Conta dos medos próximos, escorpião, barata, solidão, dívida no cartão de crédito e escuro, e daqueles tão distantes quanto Salinópolis, Ametista do Sul ou Aparecida do Taboado. Conta das madrugadas, das vontades e do amor guardado dentro do pote de guardar amores. Conta quase tudo.

Você sorri, acerta a coluna, respira fundo e conta, de uma maneira mais ou menos bonita, de um jeito mais ou menos complicado, de um modo mais ou menos ligeiro, racional e objetivo, que não sai do carro enquanto o rádio não termina de tocar aquela do Roupa Nova (pra que tanta pressa de chegar?).

Conta que foi ver a apresentação da Joana no velho teatro do Centro quando seu namorado era um sujeito ocupado que não mandava notícias nem dava um sinal e que – ai ai – também adora o Fábio Júnior. Conta até o que não devia, inclusive algumas tristezas dos anos passados e os próprios defeitos (alguém disse, acho que Clarice Lispector, que cortar os próprios defeitos pode ser perigoso, porque nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro).

Você sorri, acerta a coluna, respira fundo e conta que já gosta, apesar do pouco tempo, mas que tem vontades às vezes excessivas e demandas às vezes exageradas. Conta das alegrias de agora e de algumas dúvidas sobre logo depois. Conta quase tudo, sem peso ou vergonha, sem censura ou reprovação, sem maldade ou mau humor. Você confessa as coisas, e pronto.

(crônica publicada no Caderno 2 deste sábado)

de samambaias

Outro dia, no supermercado, percebi que gosto de samambaias. Gosto do verde plástico delas, das folhas caídas, da sensação de cheio que elas transmitem, dependuradas e firmes como poucas coisas no mundo conseguem ser ao mesmo tempo. Gosto da ideia do sol batendo nelas como se o mundo todo coubesse num sol, de um presente de aniversário às palavras de adeus, das canções de amor aos reencontros, da gargalhada diante da piada mais infame ao desejo secreto que você confessa e, um segundo depois, ri de vergonha e arrependimento.

Gosto de pensar numa fila delas, um jardim inteiro de coisas bonitas e feias e singelas e divertidas e pretensiosas e inconfessáveis, como o jardim de Paris em que Hemingway passeava a si mesmo, o jardim dos caminhos que se bifurcam de Borges ou aquele, que sonhei pra nós. Gosto da forma delas e do espaço que ocupam na varanda, como se o mundo todo coubesse no espaço da varanda, da rede ao cinzeiro, do vinho ao ciúme, do vento ao sentimento abafado pela impossibilidade, da saudade às palavras que não acredito, de mim e dele e as nossas histórias todas vistas de frente para o Mestre Álvaro.

Gosto do cheiro de mudança que elas trazem. Porque a verdade é que, desde sempre, até aquele fim de manhã no supermercado, eu olhava as samambaias e achava feiosas, espaçosas e até um pouco cafonas. As da minha infância viviam espalhadas no alpendre à espera de água e, talvez, de algum carinho na linguagem secreta da plantas. As da adolescência pediam socorro, aparentemente sufocadas pelas janelas que permaneciam fechadas enquanto estávamos fora. As dos meus 20 e poucos anos pareciam ainda piores, objetos de decoração de gosto duvidoso sujeitos a chuvas, trovoadas e ervas daninhas.

Mas naquele dia não; naquele dia, elas diziam que as coisas mudam, quase todas, quase sempre. Diziam que um dia você alimenta todas as esperanças do mundo e, no outro, as evidências contrárias derrubam o o seu sorriso. Diziam que um dia o poema da minha amiga faz todo sentido e você de fato acha que é preciso estudar volapuque, que é preciso estar sempre bêbado, que é preciso ler Baudelaire, e é preciso colher as flores de que rezam velhos autores; e no outro não é nada disso, e você fecha os livros, os poemas e as garrafas, desiste de aprender alemão e vai ao estádio assistir ao futebol.

Um dia você deixa de achar as samambaias cafonas e, quando menos percebe, passa a gostar das coisas – coisas samambaias ou coisas pessoas, coisas comidas ou coisas cores, coisas amargas ou coisas doces, coisas amores ou coisas trabalho – e não consegue mais disfarçar, mesmo que tente minimizar os indícios. E então você faz até o que, sem querer, machuca os outros, e vive uma hora depois da outra com vontade de repetir a frase do livro que apareceu outro dia na minha mesa, não sei vindo de onde, muito menos do que se trata:

“Vem comigo. Te explico no caminho”.

(Vitória, 22 de novembro de 2008)