namorada futebol clube

Um texto de maio de 2003, direto do baú e do livro Todo Sentimento, capítulo As Escolhas, páginas 39, 40 e 41.

Ilustração da Mariana Mauro [http://www.flickr.com/photos/marianamauro/

Era assim, desde sempre, a minha amiga. Se o namorado gostava de ópera, vestia seu mais discreto vestido, metia os óculos de grau para comprovar a seriedade de seus propósitos e dizia, aos quatro compassos, que era Wolfgang Amadeus Mozart desde criancinha. Se, do contrário, encontrasse no caminho um sujeito “típico”, por assim dizer, encarnava a equação “futebol + mulher + chope gelado”, agradecia a Deus pela sorte grande e corria pro abraço.

Aos 16, adorava Bob Dylan, e o vinho vagabundo ajudava a engolir o tédio. Aos 18, preferia Beatles. “Life is very short, there’s no time for fussing and fighting, my friend”, e a vodca barata ajudava a engolir o tédio. Aos 20, era The Who desde criancinha. Quem?, era o que dizia, pouco depois, quando as canções eram as dos Stones, e as cores, as do Botafogo, com as quais ela se vestia, aos sagrados domingos, para os jogos da primeira divisão e a mesa redonda com um tal de Armando Nogueira.

O tédio? A cerveja sem colarinho ajudava a engolir aos 22; um calmante, um excitante e um bocado de gim aos 24; o Merlot 97 aos 26, quando renegou o passado e embarcou, de mala, cuia e fervor, para uma viagem romântica com o intelectual aborrecido que encontrou, em plena beira-mar, por causa de um pneu furado, que, aliás, nenhum dos dois sabia trocar.

Fazia cara de entendida na via crucis pelos templos antigos de Madri, na inspeção minuciosa pelos museus de arte dum bairro modernete de Londres, no intervalo do filme cabeça indicado pelos Cahiers du Cinema, quando preferia, isso sim, voltar naquele shopping a céu aberto e torrar absolutamente todos os euros que haviam sobrado naquele vestido florido de gola em V que cairia como uma luva no clima ameno de Paris àquela época do ano.

Convenceu-se de que valia a pena deixar o vestido e a gola em V para outra ocasião, como havia valido a pena trocar o Botafogo pelo Flamengo, o John Lennon pelo Mick Jagger, um teor alcoólico por outro, os três brincos e um piercing pelo discretíssimo anel de brilhantes do noivado que não se consumou.

Sim, dizia a minha amiga, havia valido a pena trocar cada coisa por outra, as preferências que iam e vinham, descontroladas como o fim de cada um daqueles relacionamentos que, no início, ela jurava que nunca teriam fim. Dava de ombros – embora odiasse a expressão – para o mantra das Independentes Futebol Clube: não se deve abrir mão de si pelo outro, não se deve abrir mão de si pelo outro, não se deve abrir mão de si pelo outro.

Gostava de ser Namorada Futebol Clube [era assim que a gente chamava], e ponto final. Era feliz, ela jurava, mesmo que pensasse em desistir a cada vez que as coisas davam errado – e as coisas davam errado com certa frequência, e sozinha ela nem sabia o que pensar, se vinho vagabundo ou vodca barata, se Beatles, Londres ou Botafogo.

Vestido florido de gola em V, era isso, e tudo resolvido. Dizia o adeus dos justos, virava outra e partia para outro, que detestava futebol tanto quanto as baboseiras do cinema de arte, que sonhava em ser DJ nas areias de Ibiza, que ouvia música eletrônica, Radiohead e, às vezes, vozes. Adeus Mozart, adeus Beatles, adeus Stones, adeus Armando Nogueira, au revoir Merlot, bonjour LSD.

Era assim, desde sempre, a minha amiga.

os dogons e o silêncio

Descobri estes dias que existe no Mali e em Burkina Fasso, dois países que ficam em algum ponto que não sei bem da África ocidental, um povo conhecido como dogon. Cada dogon acredita ter nascido com uma quantidade determinada de palavras na barriga e, durante a vida, gasta o verbo guardado dentro com os amores, os amigos, a oposição, os irmãos e os vizinhos.

Um dia, quando o estoque acaba, o sujeito morre.

Os dogons – a tribo de camponeses, artistas e feiticeiros teria cerca de 200 mil integrantes espalhados por diversas aldeias – são também grandes conhecedores da astronomia e do início de todas as coisas, e não deixa de ser curioso que a concepção de vida de um povo inteiro comece e do mesmo jeito termine: com o silêncio.

O silêncio, como o tempo e as dores mais profundas, ensina um bocado de coisas. Faz voltar a rir depois de meses em que nada soava engraçado, faz voltar a confiar na humanidade um tempo depois da tarde em que você olhou nos olhos de um homem e ganhou um par de mentiras em troca, faz voltar a ouvir as canções daquele disco da capa branca e só o nome do cantor assinado no meio, Irene ri, o barco vazio, um objeto não identificado, o marinheiro só, os argonautas, a Carolina dos olhos fundos e a dor de todo este mundo, um objeto não identificado, Salvador, mil novecentos e sessenta e nove, que el mundo fué y será una porqueria ya lo sé, um objeto não identificado.

O silêncio faz voltar no tempo.

O silêncio, como as contradições e as decepções mais duras, ensina um bocado de coisas. Refaz os planos depois das expectativas desfeitas, refaz a pose depois da queda ou da vertigem, refaz o caminho com mala, cuia, cara e coragem quando parece que é o que precisa ser feito. O silêncio, como o tempo, refaz o que precisa ser refeito, olhar, parede, crença, sentido, prazer, história, vontade, saúde, quase tudo. O silêncio, como dizia o mestre Guimarães Rosa, é a gente mesmo, demais.

Pois, para os dogons, ao que parece, o silêncio é a gente mesmo demais e muito mais. Ele vivem com apenas 40 centímetros de chuva por ano e temperaturas de até 60 graus centígrados, entre casas de pedra e barro cobertas de folhas que ajudam a amenizar o calor escaldante e pequenos celeiros que armazenam os grãos, as espigas de milho, as cebolas, o amendoim, o algodão e o fumo que produzem.

Descendem, possivelmente, dos habitantes de um planeta que orbita ao redor da estrela Sírius e que teriam aterrissado na Terra em eras remotas, inaugurando a civilização. Transmitem suas tradições de geração em geração há milhares de anos, realizam rituais para a estrela que acreditam ser a origem de tudo. E nascem – santa evolução, Batman – com uma quantidade de palavras dentro da barriga, que acaba quando chega o dia de morrer, e eles então morrem em silêncio, porque não têm mais nada pra dizer.

[um texto de maio de 2009, em homenagem à minha garganta, que simplesmente apagou, sem aviso ou razão aparente]

todo sentimento por aí

O negócio é o seguinte: 30 exemplares do meu livro de crônicas Todo Sentimento estão sendo colocados por 30 pessoas em lugares públicos de 10 cidades do Brasil. Cada exemplar tem um pequeno cartão de instruções, que sugerem que quem encontrar o livro escolha um texto, faça as anotações que quiser e, novamente, deixe o volume em um local público. É pra espalhar tá? Aqui tem detalhes.

teoria das expectativas desfeitas

A pedidos, um texto de novembro de 2006, quando ideia ainda tinha acento e o pedaço sobre o Rogério Ceni fizesse, talvez, um pouco mais de sentido.

Ilustração da Mariana Mauro (www.flickr.com/photos/marianamauro)

Podia ser uma história sobre o amor ou o tempo ou o vazio ou os três, que em tantas histórias são como se fossem uma coisa só. Podia ser sobre ter insônia ou comprar óculos novos, sofrer com a saúde pública ou de paixão platônica, dizer toda a verdade ou a dor que não tem conserto. Podia ser sobre a sensação de que a política não serve, o tráfego aéreo não serve, os vizinhos que matam velhinhos não servem e só o Rogério Ceni salva.

Podia ser qualquer coisa, ou nenhuma. O fato é que um leitor-amigo, há algum tempo já, quer saber da Teoria das Expectativas Desfeitas, e eu de fato disse um dia que explicava dela. Faz tempo, eu sei, e é possível que ninguém além de nós dois se lembre disso, mas promessa é dívida, e eu demoro, mas pago.

A verdade é que a Teoria das Expectativas Desfeitas nem é uma teoria direito. Ao contrário dos Postulados de Newton, do Princípio de Arquimedes e das Leis do Movimento Planetário, devidamente comprovados por homens de clara vocação para os números e para a lógica do universo, a Teoria das Expectativas Desfeitas não passa de um achismo, daqueles bons e muitíssimo baratos, desenvolvido por mim, que fugi o quanto era possível das aulas de Física, numa noite de falta de sono e alguma alegria arruinada.

Ela se justifica pelo fato (triste, mas inevitável e certeiro) de que, cedo ou tarde, o amor não vinga, a flor não sobrevive, o telefone não toca, o aumento de salário não vem, a dieta não funciona e a gente chora uma dor que não se conta, existe e depois passa.

A Teoria das Expectativas Desfeitas, se fosse mesmo uma teoria, registrada, rotulada e analisada, teria sempre as mesmas causas, mas nomes diversos em culturas diferentes, e em cada lugar do mapa, imagino, seria feita de sintomas distintos – torcer o pescoço do culpado pela desilusão em comunidades mais violentas, contemplar o nada nas regiões mais remotas do Tibet ou comprar desenfreadamente nas esquinas da Aleixo Neto, dependendo da maneira como cada sociedade encarasse o fato popularmente conhecido como cair do cavalo.

O que não muda, seja num quarto repleto de livros, numa esquina de Montmartre ou no ponto exato em que Judas perdeu as botas, é que construímos laços que não necessariamente terão finais felizes, criamos esperanças de que seremos reconhecidos no trabalho quando não necessariamente seremos, acreditamos que seremos amados até o fim da vida apesar das desilusões anteriores, alimentamos a crença na evolução e na serenidade quando não necessariamente há movimento e sossego.

Freud não explica; Einstein talvez sim, porque a Teoria da Relatividade (esta sim uma teoria de verdade) determina que dois referenciais diferentes oferecem visões diferentes, e ambas perfeitamente aceitáveis, de uma mesma coisa. Em bom português, Einstein diria que dois olhares enxergam uma mesma coisa de modos completamente diversos e isso, talvez mais do que qualquer coisa, justifique os desapontamentos, as dores e as decepções que nascem quando um ama e o outro cansa, um acredita e o outro mente, um investe e o outro tira, um acalma e o outro grita.

Segundo Einstein, não há no mundo um sistema de referência capaz de medir, sozinho, todos os movimentos, porque toda medição do espaço e do tempo é subjetiva. Ele falava de Física, é verdade, não de amor, de trabalho ou de esperança; tentava interpretar a influência de sei lá o que na interação dos corpos em movimento, não nos sentimentos alheios; pensava em altura, comprimento, profundidade, espaço-tempo, forças gravitacionais e eletrodinâmica, não em vazio, riso, coração partido, alegria, rancor, afeto.

Mas dizia, entre fórmulas e outras coisas indizíveis, coisas que talvez expliquem a dor daquele tempo ou o vazio de toda a vida – ou tornem dor e vazio relativos, como são o tempo, o olhar, o espaço e um mundo inteiro de expectativas desfeitas.

e um texto antigo sobre cair na estrada, a propósito

Ilustração da Mariana Mauro (www.flickr.com/photos/marianamauro)

Eu tinha o sol na cara e a alegria de estar na estrada como se não houvesse mais nada além de ir. Tinha algum tempo livre, meia dúzia de incertezas que precisavam ser pensadas a distância, o livro que faltava pouco para acabar, Chocolápis com Coca Cola e gosto de infância, tinha algumas roupas espremidas na mala de mão e a ideia, antiga e certeira, de que uma viagem, mesmo as menores e menos surpreendentes, nos transforma em alguma outra coisa.

Estrada lembra desapego, lembra “Thelma e Louise” e o espírito de largar tudo para trás e explodir as regras todas, lembra Jack Kerouac e viajar pelo mundo de carona e igualmente quebrar tudo, lembra “Diários de Motocicleta” e as intenções iniciais daquele homem que quis mudar o mundo, lembra “Paris, Texas” e a decisão de caminhar em busca de redenção e do passado, lembra “Estrela Solitária” e aquele desejo imenso de sumir do mapa quando a cabeça dói demais ou quando um amor acaba ou só sumir, simplesmente, porque sim.

Estrada desperta a vontade de ter uma carteira de identidade nova, de telefonar pedindo um emprego novo, de aprender uma língua nova, de ter um bocado a mais de segurança e determinação, de lidar melhor com os imprevistos, de deslumbrar com as novidades, de sentir saudades de verdade, de amar daquele modo puro e profundo que amamos aos cinco anos de idade, sem dores alojadas no peito, sem sapos indigestos no estômago, ar preso nem nada.

Estrada pressupõe ser estrangeiro e um pouco anônimo, estar longe de qualquer rota conhecida e tomar outras como suas, ter referências passageiras que não explicam escolhas nem consequências, mas também não pesam como chumbo grosso, alimentar a ideia, divertida e um pouco assustadora, de que todo ser humano é um pouco como Claire Colburn, de outro filme (“Tudo Acontece em Elizabethtown”) e o mesmo espírito: pôr na mala mapas, discos, calças confortáveis, três lembranças e algum dinheiro, e sair por aí.

Estrada tem cheiro de liberdade, de solidão, de possibilidades, pensamentos desconexos, descobertas inesperadas; desperta um tipo de sentimento, estranho e bom, de pertencer a nenhum lugar, o não-lugar que os pós-modernos da academia gostam de exaltar, o não-lugar que quer dizer exatamente o que parece, vazio, impreciso, duvidoso, o não-saber latitude, longitude ou quilometragem e assim mesmo seguir, sem mapas, só canções e aquele poema.

“De repente você resolve fugir”

É Drummond, o doce e sábio Drummond, fugir sem saber o destino nem a razão (embora a razão de fugir nasça com o fugitivo), fugir sem ter dinheiro nem roupa, rumo à fuga que não se sabe onde acaba, mas começa na ponta dos dedos, fugir quando os outros estiverem dormindo, a pé e de pés nus, levando pão, canivete, lenço, figurinhas difíceis de juntar, mãos livres para pessoas, trabalhos e onças que virão, fugir agora ou nunca, à meia-noite.

À meia-noite em ponto ou nunca.

São Paulo, 4 de julho de 2007, à meia-noite
Ao som de Devendra Banhart, Cripple Crow (2005)

troque um livro seu pelo meu, o retorno

A chegada do Octaedro de Julio Cortázar, ontem à tardinha (obrigada, Leo), me fez voltar a divulgar a campanha Troque um Livro seu Pelo Meu. Funciona assim:

Primeiro você manda um livro legal (conto, crônica, romance, biografia, jornalismo, música ou cinema) em bom estado de conservação para a Caixa Postal 527, CEP 29060-973, Vitória (ES). Daí escreve um email para ana.laura.nahas@gmail.com com o endereço em que quer receber um exemplar do meu livro de crônicas Todo Sentimento, uma seleção de 30 textos sobre arte, política, fatos cotidianos e histórias sobre amores, amigos, memórias, encontros e desencontros, divididos em cinco capítulos: Os Amores, As Escolhas, As Palavras, O Tempo e A Imaginação. Em 10 dias, eu mando ele pra você pelo Correio e tudo resolvido. Sem intermediários nem cartão de crédito.

Até agora, deu certo.

tpm

Para todas as mulheres do mundo.

ilustração da mariana mauro (www.flickr.com/photos/marianamauro)

Sabe aqueles dias em que a pele parece mais flácida e as olheiras, mais profundas? Um arranhão na perna direita, latejante, irritante, deixa claro que só pretende cicatrizar no Dia de São Nunca, você tem um maldito pelo encravado, uma maldita espinha no nariz, um maldito corte no dedo e – menos, muito menos poético que naquela canção – a maldita ponta de um torturante band-aid no calcanhar.

Você comeu demais e continua com fome. A novela das oito ainda nem começou e você, completamente exausta, não aguenta nem mais manter os olhos abertos. As ideias vem e vão, embora nenhuma delas seja forte o bastante para apagar a dor, as lembranças, a raiva contra as injustiças de todo tipo, as lágrimas, muito menos ainda o cansaço, aquele mesmo, que faz a pele mais flácida, as olheiras mais profundas.

Você atrasa e o tempo não passa, trabalha e as coisas não encaixam, anda e o caminho não acaba, para e os hormônios não descansam, e haja paciência pra tanto telefone, tanta pergunta, tanta conversa, tanta cobrança. Você repete as expressões de sempre, as expressões de sempre, as expressões de sempre, e não sabe o que ouvir, porque a Sinfonia 40 é alegre demais e o Réquiem, alegre de menos, o Storytelling é quieto demais e o If You Feeling Sinister, movimentado demais, o novo Caetano é rock demais e o novo rock é quase todo bobo demais.

Você lembra que não disse tudo o que queria dizer naquele encontro apressado, e acha que às vezes fala demais, mas só consegue pensar que precisa (ou acha que precisa), em regime de urgência urgentíssima, de uma lipoescultura completa, de uns miligramas de toxina botulínica e de seis séries de abdominal nível oito, de tal modo que coisas que você nem sabe direito o que são, como lipoescultura, toxina botulínica e abdominais nível oito, viram ideia fixa.

Você pedala para queimar as calorias de dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola e picles no pão com gergelim, e nada; aumenta o volume da TV, e nada; telefona para a amiga que jura que mudar os móveis de lugar ajuda a passar o tempo e as crises, e nada, nada. Quando o dia termina, e não daquele modo que terminam os melhores dias, o travesseiro parece estreito demais e o colchão bem que podia ser melhor; não há abraço que resolva nem olhar nem canção, e é preciso dormir, mas quem consegue?

É TPM mesmo, e ai de quem ousar dizer que é frescura.

(Vitória, 22 de março de 2006)