histórias do amor demais

[horas depois da morte de Elizabeth Taylor, um texto do baú, sobre ela, Richard Burton e outros amantes do amor demais]

Como acabam as histórias de amor? Até que ponto é preciso escavar a arqueologia sentimental para saber em que momento começou o irrecuperável? Como, também, elas começam? Em que dia, em que cidade, no meio de um show de jazz ou na volta do teatro, no sofá da sala ou os dois estirados no chão, vendo o teto e ouvindo as canções que estiverem ao alcance, todas, uma depois da outra, até o fim das pilhas?

De que maneira a gente apaixona ou desapaixona, quer viver junto para sempre ou decide que melhor não e lá se vai cada um pro seu lado? Onde percebe que, leve como pluma muito leve leve pousa, não consegue mais ficar longe do abraço apertado, do cabelo desgrenhado, das manias engraçadas, de tudo? Quando simplesmente acontece o que faz não ser mais possível?

Minha amiga dos olhos fundos enterrou seu amor num sábado à tarde, diante de dois chocolates quentes com chantilly e uma frase capaz de fazer quatro anos, três meses e seis dias virarem apenas fotografias amontoadas no armário: “Acontece que eu sou como um disco do Radiohead”. Achou que nunca mais, até uns meses depois, duas taças de vinho, um sorriso de cinema e outra frase capaz de transformar desilusão em esperança: “Vem comigo?”.

Eu, como essa mesma amiga se diverte em dizer, caí de amores em setembro de um ano par, sabemos exatamente em que cena; e outra vez em agosto, um bocado de tempo depois, “rompi com o mundo, queimei meus navios”. O sujeito samba-rock dos óculos redondos eu não sei, mas imagino que ainda sinta em toda possibilidade nova o gosto amargo do fim daquele ano sob o mesmo teto.

Acontece com quase todo mundo, na esquina de casa, em Brasília ou em Hollywood. Elizabeth Taylor e Richard Burton, por exemplo, romperam o precário equilíbrio que os sustentava em 1968, quando Liz teve de tirar o útero e meteu, de vez, os dois pés na jaca, nos drinques e nas drogas para esquecer a tristeza de não poder mais ter filhos.

Pouco antes, John Lennon e Yoko Ono davam os primeiros passos de seu igualmente louco amor no final de 1966, diante de uma uma escada branca no topo da qual havia uma lupa com que era possível ler a palavra Yes. Dizem que foi por causa deste Sim, escrito no alto da obra “Ceiling Painting”, que ele se encantou por ela, pela possibilidade de assentir o que viesse, confirmar as incertezas, aceitar até mesmo as possibilidades mais inaceitáveis.

Oscar Wilde percebeu que lorde Alfred Douglas não valia a poeira de seus sapatos quando era tarde demais: estava na cadeia por causa do amante. Antes, porém, e durante muito tempo, pintou a personalidade negativa do rapaz com as tintas de sua imaginação – palavras [belas] de Rosa Montero no livro “Paixões – Amores e Desamores que Mudaram a História”.

[Recomendo].

Rosa Montero, aliás, defende em outro grande livro ["A Louca da Casa"] que as infâncias que trazemos na memória são recriações, meras fantasias, e me dizem que talvez nesta ideia esteja a resposta para as perguntas de um pouco antes. O amor, talvez, acabe quando passamos a achar mais importante [re]criar o passado que tocar o presente em direção a um futuro tão incerto quanto as possibilidades de ganhar os 20 milhões [que não ganhei] na Megasena.

Penso que sim, pode ser, e que talvez um amor comece exatamente do jeito contrário: quando, sabiamente, vivemos hoje, esquecemos ontem e não buscamos respostas para amanhã. Sim, pode ser, porque o amor morre um pouquinho a cada um dos medos imaginários que carregamos, estes malditos receios que assustam mais que barata, mais que falta de dinheiro, mais que pneu furado no meio do nada, mais que tudo, mesmo sendo tão pouco.

uma notícia e uma crônica

a notícia
Após 55 anos juntos, marido e mulher morrem com um minuto de intervalo [País de Gales, 3 de fevereiro de 2011]

Depois de mais de 55 anos de casamento, marido e mulher morreram com intervalo de apenas um minuto. Donald Dix, 85 anos, desmaiou em casa, em Cardiff, no País de Gales. Sua mulher, Rosemary, de 76, ligou para a emergência e, pouco depois da ambulância levar o marido, ligou para a filha para comunicar o ocorrido. Enquanto telefonava, passou mal. Morreu na hora. A caminho do hospital, Donald não resistiu. Nos atestados de óbito: mortes separadas por um minuto. “Um não sabia viver sem o outro”, disse a filha ao Daily Mail.

a crônica
Onze Dias [Vitória, 29 de agosto de 2008]

Ela morreu 11 dias depois dele. Ele dizia que sentia a dor que ela sentia, até no parto. Ela estava doente antes. Ele ficou doente de tristeza, de ver a doença dela, de ficar distante do hospital em que estava a mulher que teve do lado durante 68 anos. Os médicos disseram que ela teve encefalopatia e insuficiência respiratória aguda e ele, insuficiência renal e parada múltipla dos órgãos. Mas eu acredito profundamente que Dorival Caymmi e Adelaide Tostes Caymmi, na verdade, morreram de amor.

Acho bonito morrer de amor.

Porque às vezes você gosta tanto que até respira o ar do outro, até pensa o pensamento do outro, até gosta do gosto e repete as manias, sorri no sorriso do outro e por uma noite esquece as próprias dores, bebe as alegrias, abraça as tristezas, ignora os defeitos e os escorregões e as palavras que não precisavam ser ditas e as perguntas que não precisavam ser feitas, e escreve pro outro ou então canta, cozinha, aperta, olha um olhar que resume todo o seu gostar, ar, pensamento, mania, sorriso, dor; tudo.

Às vezes você gosta tanto que prefere não responder, ou então lê o signo do outro no horóscopo mesmo quando não acredita em signo, vê o rosto redondo do outro mesmo quando fecha os olhos pra tentar dormir, sonha acordado, fala sozinho, repete em segredo as melhores lembranças, os risos, os afetos, o abraço apertado, o filme da segunda, o macarrão do domingo; gosta tanto que releva as coisas que o outro disse, quis ou fez, ou não disse, não quis, não fez. Às vezes você gosta tanto que até prefere morrer.

Imagina. Um dia você conhece o amor da sua vida e tem certeza de que vai durar para sempre. Vocês começam a fazer tudo juntos e até ouvir trilha sonora de novela vira um programa divertido. Você faz música pro outro, e vai à praia e pro boteco e pras festas da família e pros shows de samba e conversa e ri à toa, como se a vida fosse boa. Você tira fotos e senta na varanda e sabe que às vezes precisa respeitar o silêncio do outro e reúne os amigos em comum e briga e faz as pazes e toma vinho e dorme abraçado e até visita o Pão de Açúcar mais uma vez só pra agradar o outro.

O tempo passa e vocês têm casa e carro e filho e futebol aos domingos e estante pra colocar os livros do Borges e sofá novo e dívida no banco e ruga e bodas de prata e viagem pro Nordeste e reumatismo e neto e aposentadoria e catarata e bodas de ouro e bisneto e colônia de férias e rádio de pilha e dor nas juntas; e uma vida inteira junto de repente termina num troço de nome difícil e significado desconhecido (não tenho a menor ideia): encefalopatia hepática. Você perde a fome, perde o chão, perde a graça e, pouco tempo depois, morre de um jeito bonito. Morre de amor.

rosa montero três

A história foi inspirada por ela:

Disse que, apesar de tudo, ainda acreditava no amor, e era tudo o que podia dizer naquela conversa sobre afetos, distâncias, dúvidas e Rosa Montero. Estavam a milhas de distância um do outro, e ela tinha as duas piores pressas do mundo: a hora marcada e a aflição dos que não sabem onde pisam. Disse do compromisso, mas não da angústia, e de sua opção pela solidão, dos motivos e tudo, e de como aquele sorriso contido atrapalhou os seus propósitos, fez querer arriscar de novo, tudo de novo, tudo.

Disse de como talvez fosse bom perder o rumo e a razão outra vez, e de como seria chorar embalada por três doses de qualquer coisa e depois seguir a vida caso as coisas outra vez dessem errado. Disse do seu cansaço, e ouviu do dele, do computador novo, das incertezas sobre as escolhas dos últimos tempos, da visita que a mãe faria, dos outros planos para maio e depois, ainda.

Disse quase tudo, menos das coisas que não teve coragem de dizer, das dúvidas que ela também carregava, da briga entre o medo do desconsolo e a vontade de ter de novo um amor que fizesse rir, ver mais sentido nos dias e nas noites, cair do cavalo e desacreditar de tudo outra vez, dos sonhos e senões que alimentou em silêncio, pela mesma falta de coragem de dizer. Tinha o dito e o não dito, e achava que agora era preciso viver as intenções todas, parar de dizê-las, isso sim, e vivê-las.

*****

Disse que, ao contrário dela, não sabia ao certo se vivia as intenções todas ou se analisava a vida. Disse das complicações sem dizer de verdade quais eram, dos limites sem estabelecê-los, do fato de que pessoas se gostam de jeitos diferentes e nem sempre sabem o que fazer com tanta diferença.

Disse do seu interesse em entender as relações que estabelecia com as pessoas e os sentimentos que cultivava, de entender e explicar, de sua mania de mudar de ideia quando as coisas pareciam já assentadas, do fato de que tinha muito mais incertezas do que certezas (só podia ser coisa de signo tanta hesitação), de tudo o que tinha feito para tornar viável aquela história que não foi, e das pedras do meio do caminho.

Disse quase tudo, menos das coisas que, como ela, não teve coragem de dizer, das definições que faltavam, de todos aqueles anos em que guardou olhares e desejos em segredo porque não era permitido compartilhá-los, do tempo que precisava para pensar, e era tudo o que podia dizer naquela conversa sobre afetos, distâncias, dúvidas e Rosa Montero. Estavam a milhas de distância um do outro, e ele tinha as duas piores dúvidas do mundo: uma fosse talvez sobre o amor, a outra sobre o que fazer com ele.

porque são bonitas as canções, parte dois

Era tarde, e até alguns dias antes ainda doía o vazio do ponto final daquela história.

“Ouve, fecha os olhos, meu amor. É noite ainda, que silêncio. E nós dois na tristeza de depois. A contemplar o grande céu do adeus. Ah, não existe paz quando o adeus existe. E é tão triste o nosso amor. Vem comigo, em silêncio. Vem olhar esta noite amanhecer. Iluminar os nossos passos tão sozinhos, todos os caminhos, todos os carinhos. Vem raiando a madrugada”

Tinha decidido ficar quieta com seu vazio até que fosse possível sair de um círculo sem saída e chegar a um lugar sem tantas mágoas. Mas aquele sorriso inesperado atrapalhava os seus propósitos, fazia querer arriscar de novo, de outro jeito, um outro amor, quem sabe. Então ouvia no rádio de pilha a canção que embalava a alegria repentina.

“Porque eu sou tímido e teve um negócio de você perguntar o meu signo quando não havia signo nenhum. Escorpião, Sagitário, não sei que lá. Ficou um papo de otário, um papo, ia sendo bom. É tão difícil, tão simples, é tão difícil, tão fácil. De repente ser uma coisa tão grande da maior importância”

Ele dizia que não acreditava nem em Deus, menos ainda em horóscopo, mas ela insistiu em perguntar. Era importante, mesmo que não parecesse, mesmo que a bebida tivesse passado da conta, mesmo que sentisse vergonha das manias de adolescente (e falar de horóscopo era indiscutivelmente mania de adolescente), mesmo que a razão, a toda hora, dissesse “sai daí, menina”.

Assim, de repente.

“Sabia, gosto de você chegar assim. Arrancando páginas dentro de mim, desde o primeiro dia. Sabia, me apagando filmes geniais, rebobinando o século, meus velhos carnavais, minha melancolia. Sabia, que você ia trazer seus instrumentos, invadir minha cabeça. Onde um dia tocava uma orquestra. Pra companhia dançar. Sabia, que ia acontecer você, um dia, e claro que já não me valeria nada tudo o que eu sabia. Um dia”

Era humana, repetia o tempo inteiro para si mesma, e o que torna humanos os humanos, por mais contraditório que pareça, é às vezes perder a razão. Perto dele, perdia, desviava o olhar, e queria dizer mil coisas, mas conseguia ficar apenas no que era superficial, e tentava ser simpática no minuto seguinte, e falava alto, pondo vírgulas antes do e, e o vestido sambando um pouco na parte de trás, e ela rindo feito boba quando ele passava.

“Ando tanto tempo a perguntar. porque esperar tanto assim de alguém. Percorrendo espaços no mesmo lugar. Não sei a quanto tempo estou a te buscar. Num segundo eu vou sabendo e percebendo o seu sabor. Sem ter medo estou correndo contra o vento sem nenhum rancor”

Aumentou o som, e ficou ali, abraçando a almofada com cara de sol.

“Vamos fugir deste lugar, baby. Vamos fugir. Tô cansado de esperar. que você me carregue. Vamos fugir pra outro lugar, baby. Vamos fugir. Pra onde quer que você vá. Que você me carregue. [...] Vamos fugir pra onde haja um tobogã, onde a gente escorregue. [...] Todo dia de manhã, flores que a gente regue. Uma banda de maçã, outra banda de reggae [...]”

As cinco canções, pela ordem:
Canção do Amanhecer, Edu Lobo
Da Maior Importância, Caetano Veloso
Lola, Chico Buarque
Tanto Tempo, Bebel Gilberto
Vamos Fugir, Gilberto Gil

(Vitória, 20 de fevereiro de 2005. Mas podia ser hoje)

sete cidades

(texto velho – velho mesmo! – inspirado pela única música da Legião Urbana que acho que gosto de verdade. Parabéns pro Renato Russo nesta data querida em que ele faria 50 anos)

Mudou muito durante toda a vida, de cidade, de casa, de humor. Mas a trilha sonora permanecia a mesma – e sabia que seria assim, para sempre.

“já me acostumei com a tua voz, com teu rosto e teu olhar
me partiu em dois e procuro agora o que é minha metade”

A música ecoava na cabeça, o peito doía do lado em que mora o perigo, os pesadelos se repetiam, noite após noite, ao fim de cada um daqueles dias quentes em que viviam, Beatriz, Lucas e todos os outros seres esquisitos que sonhavam com o céu e acordavam, encharcados no próprio suor, num quarto de paredes vazias como a própria vida quase sempre era.

“quando não estás aqui sinto falta de mim mesmo
e sinto falta do teu corpo junto ao meu”

Sentia falta, era óbvio, mas estava envolvida num turbilhão de sentidos contraditórios, que ora diziam “a dor vai passar”, ora diziam, “melhor desistir”, o ser humano não havia nascido para ser feliz. Lembrava das confissões, dos sonhos, dos cinemas, tantas paixões, a canção, claro, era linda; os dez anos de união, as promessas, horas de dedicação, poesias rabiscadas em guardanapos de papel, sentimentos registrados que ele pedia “jogue fora” e ela, desobediente, guardava.

Havia entre os trecos a folha amarelada de uma violeta, e bastou seu cheiro, que nem era bom, para que a Beatriz visse passar como um filme – santo clichê, ela detestava a idéia – os últimos dez anos de sua vida, desde o primeiro encontro com Lucas, os dois etilicamente alterados, até o adeus dolorido daquela terça-feira de carnaval, exatos dez anos depois.

Era o fim, ponto final e uma interrogação: quanto tempo cabiam naqueles dez anos? Havia muitas respostas, e nenhuma. Cabiam meses, dias, horas, minutos e todo o vazio de não tê-lo mais por perto, e depois disso não cabia mais nada, só um sofá xadrez vazio, um copo vazio, um quarto vazio e uma estante repleta de livros que eles nunca haviam lido, de discos, de canções que nunca mais ouviriam juntos, o Neil Young, todos do Chico, o Nevermind, o Velvet Underground, o Álbum Branco, “Sete Cidades”.

“meu coração é tão tosco e tão pobre
não sabe ainda os perigos do mundo”

Olhava os discos e os vazios, e sentia falta da ingenuidade dos velhos tempos, sempre ele, implacável, e três pensamentos faziam a cabeça girar. Um deles trazia de volta a primeira viagem a Paris – haviam sido três, ao todo, uma em lua-de-mel, duas com a turma do francês, como era gostoso o deles.

O outro parava ali mesmo, na esquina do apartamento comprado a duras penas, num bar que eles juravam frequentar apenas quando todos os outros estivessem fechados. O terceiro ia ainda além, nos primeiros meses, os pratos congelados que a Beatriz insistia em servir ao final do expediente e o Lucas, matemático, provava por A + B que não valiam a pena – eram custos demais e sódio demais.

As lembranças – maldito costume – traziam o ler preguiçoso dos dias de folga, o sono ligeiro, o pequeno carinho dos domingos, o macarrão com queijo que ele preparava em substituição aos pratos congelados nos meses seguintes; tudo fazia doer todo o resto além das costas (que já doíam normalmente). Só o espírito não doía mais.

Simplesmente não estava mais ali.

“longe
longe”

auto-ajuda

Confesso, outra vez: em um dia de chuva como hoje, li, inteirinho, um livro de auto-ajuda para mulheres à beira de alguma coisa. Chamava Eu Tinha Saudades Dele, Mas Estou Melhorando, capa azul, uma moça com quem definitivamente eu não pareço sentada sobre o título e uma dedicatória que escancara o interesse pouco modesto da autora, uma moça formada pela London School of Economics que, segundo a orelha do livro, “já pesquisou questões políticas que incluem a influência da mídia na psique feminina e no desenvolvimento psicológico das mulheres” e atualmente “mora em Nova York com o marido”.

“Para mulheres de todos os lugares.
Que os seus ex causem apenas uma fração da dor que vocês podem lhes causar”.

Sabe o que é pior? Depois piora.

Alison James escreve que o fim de um relacionamento é uma experiência tão arrasadora quanto ter o braço mastigado por um cachorro (hein?) ou a perna da calça presa (ai) num caminhão em movimento enquanto se anda de bicicleta, tão surpreendente quanto caminhar por uma floresta tropical cheia (medo) de insetos exóticos. Ensina que homens são como bons vinhos (porque “todos começam como uvas e é nossa tarefa pisar neles e mantê-los no escuro até maturarem e se tornarem algo com o qual gostaríamos de jantar”) e garante que “haverá um momento em que você achará que tudo chegou ao fim, e esse será o início”.

São exatas 321 páginas de “lições” (com muitas aspas) que incluem esfaquear o ex, destruir a estátua dele (como?) com “chutes e passos de danças bizarros”, pedir para um amigo gravar a mensagem da sua secretária eletrônica, mencionar “a imensa e verdejante substância folhosa nos dentes dele quando ele sorrir para você”, substituir “imagens da vida perfeita ao lado dele” por outras, do ex “preso por trás de uma cerca elétrica muito alta com um pitbull enfurecido”, dizer que estava fingindo nos momentos íntimos, “escrever ‘morra, filho-da-mãe!’ no orvalho da janela dele numa manhã fria e subornar o primo de seis anos para gritar ‘ele me bate e dói muito’ na frente da polícia.

Com caroço, igual à tirinha do Laerte.

o mundo de sophie (calle)

Como acabam as histórias de amor? Até que ponto é preciso escavar a arqueologia sentimental para saber em que momento começou o irrecuperável? Como, também, elas começam? Em que dia, em que cidade, no meio de um show de jazz ou na volta do teatro, no sofá da sala ou os dois estirados no chão, vendo o teto e ouvindo as canções que estiverem ao alcance, todas, uma depois da outra? De que maneira a gente apaixona ou desapaixona? Onde percebe que, leve como pluma muito leve leve pousa, não consegue mais ficar longe? Quando simplesmente acontece o que faz não ser mais possível?

Voltei às perguntas daquele delicioso mês de maio enquanto visitava, na sexta-feira de carnaval, no Rio de Janeiro, a exposição Cuide de Você, de Sophie Calle. A história dela foi contada inúmeras vezes. Calle estava em Berlim, em 2005, quando recebeu do namorado, Grégoire Bouillier, uma mensagem sem pausa nem amaciante: estava tudo acabado ele ainda a amava mas não estava bem ultimamente não se reconhecia em sua própria existência jamais havia mentido pra ela então não era agora que mentiria tinha outras três mulheres que ela certamente não aceitaria até gostaria que as coisas tivessem tomado um rumo diferente então adeus estava mesmo tudo acabado.

Ela esperneou, tentou imaginar o que teria feito de errado, praguejou contra o autor da carta, cretino, idiota, corno, absurdo, vingança, dor no estômago, chocolate, buááá, vodca, porre, ressaca, remédio pra dormir ou possivelmente alguma variante da ladainha que, uma ou mais vezes na vida, toda mulher encena diante do mundo desabado pelo fim de um amor. Depois, como não soubesse o que responder (alguém sabe, numa dessas?), fez 107 cópias da carta e distribuiu entre mulheres de variadas idades e profissões, pedindo que elas buscassem suas interpretações para o que estava escrito e fizessem o que quisessem com as palavras finais dele: “Cuide de você”.

Era a maneira que havia encontrado de obedecê-lo e cuidar de si.

A exposição apresenta o resultado das interpretações e, também, fotos das mulheres convidadas por Calle para participar do projeto. Tem desde a petição de uma juíza até a conclusão de uma taróloga, desde a notícia redigida por uma jornalista segundo os padrões de agências internacionais de notícias até a análise de uma terapeuta familiar, desde a ladainha de um papagaio (uma cracatua, pra ser mais exata) até a constatação, pura, simples e muitíssimo prática, de uma criança diante do inevitável acabar-se.

*****

A propósito, Calle, que discutiu a relação em público com Bouiller durante a Festa Literária de Paraty, no ano passado, já era  famosa por esquisitices em nome da arte bem antes de Cuide de Você. Ela filmou os últimos dias de vida e a morte da própria mãe (ela tem 612 horas de gravação), perseguiu estranhos nas ruas de Paris para fotografá-los e criar fichas com histórias que imaginava a respeito deles (nesta época também trabalhou como stripper em um clube da zona boêmia parisiense). Dois anos depois, em 1981, pediu à mãe que contratasse um detetive para segui-la por 24 horas, sem que ela soubesse quando a perseguição estaria acontecendo exatamente. Os dois registraram o período, com fotos e anotações que se transformaram na exposição La Filature (A Perseguição).

Aqui tem mais sobre a trajetória dela.
Aqui quem quiser pode mandar sua interpretação para a carta.
Aqui dá pra ler a carta de Bouiller, traduzida para o português.