Há um grande vento frio cavalgando as ondas, mas o céu está limpo e o sol muito claro. Duas aves dançam sobre as espumas assanhadas. As cigarras não cantam mais. Talvez tenha acabado o verão.
Rubem Braga
Há um grande vento frio cavalgando as ondas, mas o céu está limpo e o sol muito claro. Duas aves dançam sobre as espumas assanhadas. As cigarras não cantam mais. Talvez tenha acabado o verão.
Rubem Braga
É fato: pouca coisa no mundo lembra delicadeza e doçura de modo tão imediato quanto as flores. Diante das flores, a gente pensa em açúcar, afeto e gentileza, aprende sobre a espera, a regadura e o melhor dos remédios [Drummond dizia, com toda razão, que entre a raiz e a flor há o tempo], entende o ritmo, a suavidade e as possibilidades da natureza, percebe o caminho, o processo e o movimento das sementes. Diante delas, a gente coleciona lições.
Com os girassóis, a gente conclui que os dias azuis e amarelos sorriem mais [e a gente sorri com eles] e decide que faz bem ser um pouco heliotrópico, comportamento que, segundo a biologia, têm os vegetais que por motivos diversos se voltam para o sol.
Com as rosas, descobre o devagar da vida, a sutileza do toque, a importância do cheiro, o machucado do espinho e o cuidado, uma pétala depois da outra e às vezes os ais. [E ainda tem o Rosa, nome próprio com nome de flor, que escreveu que o mais bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que vão sempre mudando].
Com as margaridas, percebe os capítulos que a vida cria em torno de outros capítulos, o branco, o amarelo e o laranja dispostos em círculo, um depois do outro, capazes de trazer de volta um pouco da inocência das crianças, bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer.
Com as tulipas, sonha com o amor perfeito e estuda até um pouco de geografia quando contam que elas vieram da Turquia, não da Holanda. [E tem ainda a Tulipa, nome próprio com nome de flor, que canta de um modo bonito a baladinha da moça que teu ar displicente invade o espaço e ela cai no laço exatamente do jeito – um crime perfeito!].
Com as orquídeas, ingrediente da bebida que dava força e virilidade aos astecas e curava tosses e doenças pulmonares dos chineses, a gente acolhe o que é elegante, exótico e sensual, e treina um pouco do verbo cultivar: quanto de luz, rega moderada e adubação periódica com substratos apropriados, um diferente para cada fase do desenvolvimento.
Por fim, com as violetas, que os homeopatas usam desde 1829 para combater sinusites e reumatismos, a gente pinta de colorido a casa de paredes brancas e enfeita as estantes com a espécie que jardineiros, paisagistas e floristas acreditam ser o símbolo da lealdade e da modéstia, três meses de descanso e depois flores outra vez, exatamente como Cecília Meirelles escreveu que seria, girassol, rosa, margarida, tulipa, orquídea, violeta e gente:
“Aprendi com as primaveras
A deixar-me cortar
E voltar sempre inteira”.
[Texto do catálogo da mostra Floreiros, que celebra a chegada da Primavera, na Galeria Ana Terra, em Vitória]
Deu no jornal: um estudo da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, na Inglaterra, sugere que a possibilidade de infarto é maior depois de duas semanas de exposição ao frio. Com base em 84.010 internações, a equipe da médica Krishnan Bhaskaran observou um maior número de infartados nestas condições. Salvaram-se apenas os que tomavam aspirina. O remédio, ao que tudo indica, protege o coração de alterações na função plaquetária – o frio contribuiria para o aumento da pressão e da viscosidade do sangue, induzindo a agregação de plaquetas.
De outro lado, registra-se na primavera e no verão a maioria dos casos de Síndrome do Coração Partido, que, ao contrário do que o nome sugere, não é um mal que acomete aqueles dispostos a amar uma, duas, três vezes, apesar das provas de que amar nem sempre é a coisa mais sensata a se fazer na vida. A SCP foi descoberta no Japão no início dos anos 1990, entre mulheres com mais de 60 anos que estejam vivendo ou tenham vivido situações de tensão extrema. Os sintomas se parecem com os de um infarto, mas as consequências, felizmente, são menores e rapidamente reversíveis.
Apesar dos protestos, sempre adorei os dias de calor, abrir a janela felicíssima com o quente que vem da rua, aproveitar os minutos que sobram do almoço plantada debaixo do sol como uma planta fazendo sua fotossíntese, olhar atrás do vidro a profusão de vermelhos e amarelos e cinzas e verdes do entardecer, pensar no quanto faz bem viver embalada pela ideia de que, no verão, a vida pesa menos. Mas o outono, que começou oficialmente às 14h32 do divertido sábado-de-samba, tem seu lugar, certo que tem.
Enquanto o verão lembra leveza e movimento, o outono lembra faxina, arrumação, vender o carro polido aos sábados com certa displicência, os eletrodomésticos da casa de paredes brancas, geladeira, fogão, mesa com tampo de vidro, tela plana e até a cama, desde sempre recostada na parede. Se o verão lembra praia, música alta e caipirinha, o outono lembra mudar de ares, desfazer do apego, do muito medo, do aconchego e da timidez, jogar fora os papéis que não servem, e também algumas histórias e as faltas.
Enquanto o verão tem chegadas e reencontros, o outono tem a decisão, difícil mas certeira, de deixar, virar a página. Se franceses, paquistaneses, chineses e holandeses eram capazes de viver com gramáticas e relações em que nunca houve a dor da ausência, por que não a gente? Saudade, afinal, faz parte da lista das palavras (é a sétima) mais difíceis de traduzir do mundo – só perde para ilunga (“alguém disposto a perdoar quaisquer maus-tratos pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez”, no idioma africano Tshiluba), shlimazi (“alguém cronicamente azarado”, em ídiche) e outras quatro que não lembro agora.
Outono é tempo das mudanças, dizem os maias, os astecas, os chineses, os hindus e os japoneses. É temporada de transformações, de colher e ver as folhas que caem, amarelas. É a época em que a luz solar incide perpendicularmente sobre o Equador, ambos os hemisférios igualmente iluminados, dias e noites com duração semelhante, temperaturas mais amenas, menor umidade do ar, redução de chuvas (é?), mudanças bruscas no céu e, segundo o Instituto Nacional de Tempo, Clima, Psicologia e Transformações em Geral, formação de nevoeiros que, chova ou faça sol, terão se dissipado até o final da estação. Oba.