Uma pequena homenagem aos contraditórios [acontece]
Meu amigo olhou em volta e garantiu que, ali, éramos todos igualmente contraditórios, eu, ele, a aniversariante da noite, a dupla da televisão, o músico que sorria de dentro, o sujeito dos olhos claros que eu não conhecia, o menino que parecia cada vez mais indiferente ao outono passado [e nada melhor que o tempo pra sermos, de fato, indiferentes], o trio de preto da mesa da esquerda, o cara atrás do balcão e talvez até o garçom de nariz torto que nos trazia cervejas a tempo, mas demorava com as batatas. Éramos todos contraditórios como o novo acordo ortográfico, os kiwis, as boas obras de arte e a maioria dos amores.
Falávamos do fato de que não dá pra ter as unhas feitas e ser uma boa dona de casa ao mesmo tempo, ter montes de livros na estante sem sofrer de alergia, ter frio na barriga e estabilidade na mesma história, ser boêmio e dormir as horas que a pele exige pra ser bonita, e eu pensava no peso que é precisar decidir a toda hora entre um e outro, posse ou liberdade, apego ou bom senso, amor de tirar o fôlego ou outra coisa que se possa suportar, fim doloroso para histórias de começo encantador ou a calma das palavras sem brilho, se guardar dinheiro nos fundos de renda fixa ou “melhor queimar tudo agora do que desaparecer aos poucos”.
Pensava em como é torto querer tudo e, um minuto depois, nada; dizer que nunca mais e querer pra sempre um minuto depois; sentir dor no peito, no olho e no cotovelo e ao mesmo tempo saudade de quem causa essa mesma dor, desejar enquanto estraga. Pensava em como é torto chorar de felicidade, alimentar os sonhos de sossego e os anseios de independência, comer quando não tem fome, dormir para que as horas corram e o dia seguinte traga exatamente a mesma dor, a mesma saudade, o mesmo estrago, o mesmo choro, a mesma falta de fome e sentido que cansa mais que todo o resto.
Pensava que talvez de fato a gente dissesse, fizesse, sentisse e defendesse no momento seguinte exatamente o oposto do que havíamos dito, feito, sentido e defendido um pouco antes, e que talvez por isso fosse tão difícil entender e explicar o outro e a gente mesmo, dividir e conviver, enxergar e fechar os olhos, amar e libertar, uma coisa e outra juntas no mesmo ato, mesma frase, mesma história.
Porque as contradições talvez sejam uma das maiores pragas e, ao mesmo tempo, um dos troços mais encantadores da convivência humana, prender, desprender, ir, voltar, sair, entrar, encontrar, desencontrar, querer, abandonar; o silêncio da composição de John Cage e as sete mil palavras que, segundo uma pesquisa, uma mulher diz num único dia (os homens, só pra constar, pronunciam cerca de duas mil, segundo o mesmo estudo); ter um amor que ao mesmo tempo amarra e liberta, viver num mundo de movimento e permanência, sonhar e pagar as contas, tanta coisa e tantas outras que só mesmo o fato de sermos tão contraditórios ajuda a explicar.
Ou não.