comer, sorrir, libertar

Ele tinha gosto pelas coisinhas boas da vida: as comidas, as paisagens, as conversas e o riso.

Simone de Beauvoir falava sobre Jorge Amado, que recebeu ela e Jean-Paul Sartre no Brasil lá nos anos 1960, Recife, Belo Horizonte, São Paulo, Copacabana e Ipanema e, claro, a Bahia, tempero, filosofia, boemia, política, sol e, claro, candomblé. Em comum a visitante francesa e o escritor baiano acreditavam que um país se conhece por seus sabores, ao contrário de Sartre, de estômago sensível aos gostos fortes do caju, cacau, maracujá, feijoada, feijão mulatinho, mandioca, batata-doce, carne seca, rapadura e caipirinhas variadas.

Madame Simone Lucie-Ernestine-Marie de Beauvoir falava de Jorge Amado, mas podia, apesar de sua famosa antipatia, estar dizendo de mim ou de você, da minha amiga ou do seu grande amor, do empresário com espírito de artista ou da antiga vizinha que esbanja suavidade, da passista ou do sujeito que não tinha casa [e era como se fôssemos ele aquele personagem de Will Eisner que só tem de lutar para viver mais um dia e eu aquela que precisa saber por quê].

Gostar das coisinhas boas da vida, afinal, parece ser um bom modo de viver: cozinhar os pratos herdados dos livros de receitas em letra miúda e depois comê-los, visitar as ruas que a gente ainda não visitou e as paisagens alheias que agora são também um pouco da gente, passar a noite em torno das mesas que libertam e, além, ainda, ajudam a entender as perdas, as chegadas e as séries de TV, sorrir diante dos atos, dos fatos, dos relatos, dos encontros, da imaginação e do sensor de movimento do videogame.

Gostar das coisinhas boas da vida parece ser um bom modo de viver: comer os pratos que se inventa nas noites em que o tempo deixa [ou quando não, e mesmo assim os compromissos esperam um pouco mais], ver a cidade do alto ou os prédios antigos em torno, entrar a madrugada fresca entre confissões e declarações de amor, rir de tudo, o quanto possível, apesar das faltas. [Porque, de fato, como escreveram estes dias, as pessoas são como a palavra panegírico: uma hora estão e, no instante seguinte, resta apenas a ausência].

Gostar das coisinhas boas da vida parece ser um bom modo de viver: gastar algum dinheiro [mas não todo] em restaurantes ao ar livre, compartilhar os endereços da infância com os afetos mais profundos, ouvir do dia, do trabalho, da agonia e dos projetos e outra vez rir diante do sol, do desejo, do amor verdadeiro, das horas livres, das expressões que o dicionário não tem, de um exame que negou as suspeitas mais graves, das canções e de quando, mesmo que temporariamente, a gente encontra um sentido.

Gostar das coisinhas boas da vida parece ser um bom modo de viver, bom como ver o mundo com o dia claro, pedalar pelo bairro ou andar a pé até a praia, desafinar debaixo do chuveiro ou acompanhar o pianista, escrever e ouvir relatos de quem se identifica com aquelas [estas] palavras. Bom como acordar sem roupa pra passar, tomar sorvete de cereja com calda de Nutella, fazer silêncio, rever os amigos e dividir com eles um pouco da dor irremediável de perder as pessoas, as coisas e o rumo. Bom como viver num mundo sem a má política, sem os maus caráteres e sem os maus humores.

Gostar das coisinhas boas da vida, como Simone de Beauvoir disse que Jorge Amado gostava, mas podia estar dizendo de mim ou de você, da minha amiga ou do seu grande amor, do empresário com espírito de artista ou da antiga vizinha que esbanja suavidade, da passista ou do sujeito que não tinha casa, parece ser um bom modo de viver. Bom como comer, olhar, conversar, sorrir, bom como a frase do físico, boa, boa de doer: “Ser livre é poder escolher ao que se prender”.

sobre a simplicidade

Talvez seja o verão, ou então a bicicleta, o cardápio à base de legumes, chocolate e Coca Cola, a pintura nova das paredes, as mudanças no armário, a rima da moda segundo a qual não precisa sofrer para saber o que é melhor para você. [Não mesmo]. Talvez sejam as celebrações, ou então a própria vida, as canções, as boas companhias, os parceiros que suavizam com seu afeto as ausências mais doídas, dizem com seus silêncios as verdades mais fundas, ocupam com sua presença os inevitáveis escuros, emolduram com sua compreensão as angústias que insistem. Talvez sejam os astros.

Talvez seja o contexto, trocar o endereço, cometer pequenos pecados, sambar e balançar um mundo inteiro de sambas e balanços, investir em simplicidade e silêncio, “Ive Brussel”, os pratos da cozinha, os amigos que chegam para celebrar, um sorrisão a qualquer hora simplesmente porque sim, uma viagem anotada na agenda, o resto dos planos para o futuro, voltar a ver o mundo com os olhos da delicadeza, tanto quanto possível, mesmo que nem sempre. Talvez seja o texto, um trecho tão bonito quanto certeiro, perdido numa entrevista qualquer:

“Quanto maior me faço, mais simplifico minha vida”.

Talvez seja o filme da terça passada, o sujeito de meia idade às voltas com uma traição que precisava ser digerida, uma criança e dois adolescentes mais ou menos desajustados, a esposa num coma sem volta, uma vida inteira de muito trabalho, pouco luxo e contenções em excesso, o mundo todo prestes a desabar sobre seu cabelo cinza. Matt King, o personagem central de “Os Descendentes”, podia ser eu, você, o vizinho do andar de cima, qualquer um. Quando corre desajeitado pelas ruas do ensolarado balneário em que vive, resume os caminhos de quem tenta, do mesmo modo desajeitado, correr atrás de respostas. Quando rebola para se aproximar das duas filhas, materializa as barreiras que, cada um de nós, uma ou mais vezes, enfrentou diante de uma conversa – ou da falta dela.

Quando sai em busca do amante da mulher moribunda, faz rir de tão igual aos que [quem nunca, uma vez que seja?] vasculharam Facebook, Orkut, Twitter, Sonicos e o que mais em busca de evidências ou nem. Quando varia entre vender ou não o imenso terreno virgem e paradisíaco herdado dos avôs, desperta a dureza que é estar dividido entre as posses e o desapego, o dinheiro e as raízes, a ambição e a beleza. Quando grita com a mulher inerte e, no momento seguinte, é todo ternura, joga luz sobre descontrole e no momento seguinte o sossego, as ofensas e logo o arrependimento, a loucura e, passado o caos interior, a paz. Quando beija a esposa do amante da sua esposa, revela as contradições da dor de cotovelo.

[Doi do cóccix até o pescoço].

Talvez seja Matt King, ou vai ver são os legumes, as celebrações, as canções, o contexto ou o texto. Talvez sejam os astros ou então o verão o responsável pela vontade recorrente destes dias: leveza, calma, simplicidade, aquela, lembra?, que numa destas ironias da vida a gente trabalha duro para encontrar. A estação mudou, mas a tarefa é a mesma: aprender a lição do músico de barbas brancas, exercício e imprevisto, ensaio e improviso, estabilidade e movimento, poesia e cálculo, tempo e imaginação, fé e bom senso, equilíbrio e rompante, como o músico ensinou que podia haver, a gente atingindo a liberdade que permite improvisar quando trabalha muito, e com muita disciplina.