a lição dos buldogues

Buldogues franceses não precisam de grandes espaços para serem felizes. Vivem em lugares pequenos, próximos e leais aos donos daquele afeto todo. Sim, buldogues franceses são afetuosos por natureza. Segundo consta, o pior dos castigos pra eles é a solidão.

Buldogues franceses são engraçados, suaves, bem-humorados, apesar de aparentemente marrentos. Preferem as horas mais frescas do dia ou então a calma do sofá. Segundo consta, são cães de pensamento solto: fazem as coisas do modo como bem entendem, mas naquele modo levinho de que são feitas as tortas que escapam da receita, determinados encontros e as tardes de domingo.

Ponto pra eles.

Buldogues franceses são em geral silenciosos, quase preguiçosos. Preferem o repouso ao excesso de movimento, latem pouco [ufa], gostam de servir e de experimentar novos sabores. Segundo consta, precisam de contato constante com humanos.

Buldogues franceses brincam sempre que possível, como deve ser, em certos momentos, a postura minha, sua, de todos nós. Ou não é exatamente como aquele outro texto?, rir apesar das ausências, dançar a dança dos dias felizes das perdas, levar ao pé [literalmente] da letra a lição gingada do mestre Jorge Ben segundo a qual quando você para de brincar de mexer seu coração, ao invés de bater, padece.

Buldogues franceses são livres como a cronista de óculos grossos e coração apertado escreveu que era [ou queria ser] – livre para rir ou chorar, lembrar ou esquecer, sentir saudades de ontem e, ao mesmo tempo, construir os mais belos planos para o dia de amanhã, livre para desenhar o rosto do amor dela apesar de não saber desenhar e porque já não corria o risco de vê-lo chegar de repente e se botar cinicamente a rir do seu sentimento e do desenho dela. Segundo consta, a cara achatada dos buldogues franceses exige respiração pausada e um pouco de sombra, distância da água e toques sutis. Buldogues franceses adoram um cafuné.

[Como não?].

Envelhecem rápido. Segundo consta, aos 12, 13 anos, estão próximos do fim da linha, mas mantêm a alegria e a liberdade dos primeiros tempos. Com Bilbo, o buldogue francês sobre o qual escreveram estes dias numa revista, foi assim. Um dia, dois veterinários diagnosticaram que ele tinha pouco tempo de vida. Disseram que seu coração era do tamanho da caixa toráxica e que seus rins não funcionavam bem. Receitaram remédios, ração especial, manhã, tarde e noite de privações e limites.

Ele detestou, emagreceu, ficou tão mau-humorado e deprimido que seus donos decidiram deixá-lo em paz para que fosse feliz, mesmo que durante pouco tempo. Livre das pílulas de velho e da comida de doente, Bilbo voltou a viver como um buldogue francês típico, adepto do riso e da suavidade.

É a lição, mesmo que involuntária, instintiva, animal. Saudar mais a vida que a morte, mais o riso que a doença, mais a dança que as restrições, como devemos também fazer, sempre que possível. Respirar, sorrir, cuidar, respeitar, uma mão, gentileza, afeto, um pouco do tempo que anda cada vez mais escasso, aquilo tudo. Em lugares pequenos, com os afetos por perto, bom humor e pensamento solto, a calma do sofá, sabores novos e as tortas que escapam da receita.

do instante que passa

“[...] Me sinto bem aqui em cima, inclusive, para esquecer os puristas da língua pátria e não ligar para a maldita ordem em que devem ser colocados os pronomes. Que se danem os mestres. Muito mais importante que as regras gramaticais é a maneira pela qual a gente consegue, nesta deliciosa desordem, misturar as palavras e fazer da última flor do Lácio inculta e bela um meio gostoso de se comunicar. Me sinto, portanto, capaz de fazer tremer até o Eça de Queiroz, mas eu vou colocar os meus pronomes onde bem quiser.

E tem mais: aqui eu sou livre para rir ou chorar; para lembrar ou esquecer; para sentir saudades de ontem e, ao mesmo tempo, construir os mais belos planos para o dia de amanhã. Livre para desenhar o rosto do meu amor, apesar de não saber desenhar, porque já não corro o risco de ver você chegar aqui de repente e se botar cinicamente a rir do meu sentimento e de mim. 

É verdade que o tempo tem sido curto. Mas também não tenho sentido a menor vontade de sair. Tenho ficado em casa todas as noites; há dias não vou ao encontro da corja. Ontem mesmo houve pessoas muito queridas que estiveram por aqui. Queriam saber de mim, como é que me vou arranjando. Vou me arranjando bem, graças a Deus. E, para que eu esteja melhor, é preciso que essas pessoas voltem sempre, pois aos amigos eu confiei uma parte de minha felicidade preguiçosa, que às vezes gosta de cochilar. É importante, então, que vocês não a deixem dormir, que estejam perto, vigiando todos os dias, cada vez mais íntimos, mais amigos, mais irmãos. Dispostos ao momento da amizade, das mãos dadas, das coisas do coração.

É pensamento que me vem, enquanto fico procurando por vocês, em cada um destes objetos que constituem uma parte da minha vida, da minha vida que vocês valorizaram, e que acabei de acomodar entre as paredes desta casa: livros, jornais, revistas, algumas roupas, muitos sapatos, uma máquina de escrever, um berimbau que guardou ternura de tantas noites e poeira das estrelas que morreram no céu, para nunca mais. Um radiozinho que se recusa a falar. Alguns discos que variam de Bach a Aznavour, um coelhinho azul e tímido, uma cobrinha chamada Mildred, que tem medo de temporal [...].”

Mais uma Crônica do Instante que Passa
Carmélia Maria de Souza, 1967

carta aberta (2) à finada amy winehouse

Querida Amy,

Passei a noite ouvindo seu disco póstumo. Fazia aquele calor abafado de quando a chuva prepara seu próximo estrago [a situação por aqui não anda nada boa, viu?, desabrigados, deslizamentos, enchentes, uma cidade toda embaixo da água, a mãe obrigada a escolher qual dos filhos salvar diante da casa submersa, porque eram três e só havia dois braços...].  Já era 2012 e, apesar do anunciado e garantido, o mundo [ufa] continuava como sempre esteve, mais ou menos firme e mais ou menos forte.

Quando a primeira canção começou a tocar, pensei nos que se foram igualmente cedo como você, e nos que ao contrário chegaram daquele modo bom: dança dos dias felizes e às vezes madrugadas, tronco leve, sorriso escancarado, disposição para qualquer coisa, a qualquer hora, brilho no olho e um efeito semelhante ao funk do balanço que tira qualquer um da fossa. Chegaram, felizmente, decididos a ficar.

Embalada pela sua música, parei diante do que defendia o cronista na página 78 daquela revista, a respeito de muitos de nós vivermos angustiados pela percepção de que os outros, todos, absolutamente todos, vivem felizes e bem resolvidos enquanto a gente nem sempre e nem tanto. A verdade, ele diz e acho que você concordaria, é que nenhum de nós vive feliz e bem resolvido o tempo inteiro, inclusive [talvez principalmente] aqueles que fazem questão de aparentar sucesso e felicidade em período integral.

Precisamos de ajuda, ele escreve, Amy, porque não sabemos morrer [você cantou que morreu uma centena de vezes, não?], porque não sabemos lidar com a morte dos outros, não sabemos nos concentrar, relaxar, sustentar relações positivas ou superar hábitos destrutivos. Segundo o escritor da página 78 daquela revista, não sabemos direito sequer como aprender.

[Taí um dos verbos mais bonitos do mundo, pelo menos do meu: aprender, transitivo, regular, aprendendo no gerúndio, aprendido no particípio, aprender no infinitivo, compreender algo ou alguém pela técnica ou pela sensibilidade, pela repetição ou pela experiência, pelo exemplo acertado ou justo o oposto].

Quando a quarta canção começou a tocar, e diante do calor abafado de quando a chuva prepara seu próximo estrago, do anunciado e garantido, das chegadas e do escritor da página 78, lembrei da primeira carta aberta que te escrevi, Amy, dois ou três anos atrás [seriam quatro?].

Você já havia determinado que o amor era um jogo perdido, que talvez devesse ter crescido um pouco mais sensata e o quanto era difícil colocar as coisas em ordem com a voz dele na sua cabeça. Em mais de uma ocasião, havia debochado da sua estupidez, confessado seus vícios e as horas em que chorou pelos amores frustrados no chão da cozinha. [Acontece, Amy, acontece].

Quando a décima primeira canção começou a tocar, pensei na vida breve que você teve e na imensa herança que deixou com sua música. Pensei naquela segunda-feira de janeiro, o palco, a plateia, a pizza, o Rio de Janeiro, as boas companhias e as alegrias do regresso. Pensei no tanto que veio depois, e de repente era já a décima segunda, a última, sobre lugares, o tempo, indelicadezas, segredos preciosos e a estrofe final que, a esta altura, Amy, soa assustadoramente profética:

“Quando minha vida acabar, lembre-se de quando estávamos juntos. Estávamos sozinhos e eu estava cantando essa canção para você”.