dias, meses, páginas

O exercício se repete, ano depois de ano. A alguns dias da virada, a tarefa é passar a limpo a agenda do ano velho [e em alguma medida a própria vida], remarcar aniversários, tipo sanguíneo, praça, número e código de endereçamento postal, e-mail e telefones de emergências, olhar pra trás, avaliar projetos, feitos e desejos a partir de um calendário com espiral e uma dúzia de anotações a lápis ou caneta em cores. Depois é seguir em frente.

É um ritual, como talvez seja boa parte dos rituais, tão simbólico quanto significativo, mesmo que o Quintana diga que as segundas-feiras, os primeiros dias de cada mês e os Primeiros de Ano sejam apenas uma ilusão de que as coisas se renovam.

["Que seria de nós se a folhinha marcasse hoje o dia 713.789 da Era Cristã?"].

Deve-se escolher as canções certas, escancarar as janelas escancaradas, deixar lápis e borracha a postos, e também os projetos, as metas e os sonhos. Devem igualmente estar na ponta da língua as orações ao grandioso e bom Deus para que, outra vez e sempre, torne as presenças constantes e as ausências amenas, perdoe os deslizes, desconte as faltas, alivie os excessos, mantenha a paz e instaure o equilíbrio de uma vez por todas.

Uma página depois da outra, é hora de organizar os 12 meses seguintes, pensar nas coisas feitas, nas não feitas e nas desfeitas, rever 365 [às vezes 6] dias de anda, para, muda e desmuda, sente e dessente, promete e despromete, faz Pilates pra coluna torta, vai ao cardiologista pro coração cansado, pinta a parede pros olhos felizes, compra cortina, compartilha a vida inteira, sente saudade, anota, telefona, espera, escolhe, encolhe, chora, ri, bebe, levanta, canta.

Precisa de tempo e paciência, 30, 50, muitos minutos de retrospecto, atividade, reunião, filmes, discos, livros e um mundo inteiro descoberto ou revisto, a Amy ao vivo e logo depois nunca mais, a bailarina e o exato momento em que a razão se perde de si mesma, Barney Panofsky e toda a verdade sobre o amor guardada em 132 minutos de cinema, todo sentimento por aí, cozinhar, rezar, passar por cima de uma escolha difícil de esquecer, querer continuar Aquário quando mataram Plutão e mudaram os signos, por pra tocar as meninas da Augusta e os de sempre, o Roberto, o Caetano, o Gil, a Elis, o Tom, o Baden, o Paulinho, o Jorge, o João e o Chico, inclusive o novo.

“Mas só se for agora
Venha ouvir sem mais demora”.

Precisa de atenção e zelo, cinco, dez, algumas notas de planejamento, filmes, discos, livros e um mundo inteiro desejado ou previsto, uma viagem, os 90 anos da vó, um documento a ser assinado, um desafio no trabalho, voltar a pedalar, viver as madrugadas do mesmo jeito bom, batalhar pela manutenção do encanto diante do mundo, dos encontros, das descobertas e da arte.

Precisa de atenção e zelo, três, quatro noites em busca da próxima saída, rezar um pouco mais, Santa Rita, Santo Expedito, Nossa Senhora da Penha, Ana ou Aparecida, São Bento de Núrsia, Santo Antônio ou então direto com o Homem, sem intermediários [lembra?], serenidade, saúde, sabedoria, um caminho bom para os queridos, uma cura ou um milagrezinho, sossego, Senhor tirai as minhocas desta cabeça amém.

É um ritual – não custa repetir – tão simbólico quanto significativo, mesmo que o Quintana diga que as segundas-feiras, os primeiros dias de cada mês e os Primeiros de Ano sejam apenas uma ilusão de que as coisas se renovam.

desapego

Chega a ser irônico que a mesma temporada em que uns compram enlouquecidamente inspire outros a jogar fora, doar, vender pro sebo, colocar em exposição no bazar do final da rua. É tarefa para várias noites: diminuir a pilha de livros à espera das traças, de vestidos que há algum tempo deixaram de cair bem, de panelas e garfos e facas que não servem, de rancores, lembranças e histórias que o coração não quer e o estômago não aguenta.

Estou dentro.

Olho, por exemplo, o vestido marrom de uns três ou quatro invernos atrás. O corte é elegante, tecido de primeira, figuras geométricas em preto espalhadas por toda a sua extensão, viés na cintura, zíper nas costas, destaque para o espaço originalmente destinado ao balanço das cadeiras e algumas memórias guardadas nele, uma noite, uma companhia, um presente delicado, uma cidade inteira e uma certeza: dificilmente vou caber outra vez ali dentro.

[Que dó].

Olho então as estantes do quarto dos livros, arrumadinhas [ou semi]. Os de jornalismo vivem numa prateleira, os romances na outra, os latinos em uma, os sobre música em outra. As aquisições recentes à espera de tempo e dedicação estão em uma, as revistas e jornais em outra, em ordens diversas que estabeleço vai saber como [a gente se entende], as caixas de lápis, canetas e post-its, tesoura, cola, caderno [adoro], telefone, caixa de som, fotografias, aquilo tudo, em contante construção.

Olho os discos que há algum tempo não compramos mais e as exceções – o Chico novo, o Moska duplo, a Tulipa porque isso é o que o amor faz, o Jeneci e ainda um pouco do novo samba que se faz por aí, porque a vida [lembra?] é pra se levar como o Geraldo, o Angenor, o Nelson, o Heitor, o João, o Noel, o Baden, a Ivone, o Jorge, a Clementina, o Adoniran e o Alfredo ensinaram, cobertos de razão e ainda hoje, que era para levar.

Olho para trás, exatamente como a época inspira: escolha, decisão, definição, mudança, aprendizado, felicidade, madrugada, promessa, caminho; um ano bom apesar das faltas que cheiram à indiferença e dos desapontamentos que parecem movidos pela pura vaidade; um ano bom, apesar dos deslizes, dos arroubos, das deslealdades; um ano bom, apesar dos pesares.

Chega a ser irônico que a mesma temporada em que uns compram enlouquecidamente inspire outros ao desapego, ao árduo trabalho de deixar o superficial para cada vez mais abrir espaço ao fundamental, escolher, organizar, descartar, mudar. É difícil, mas funciona. O planeta agradece. A alergia, a faxineira, os desabrigados pela chuva e as amigas magras que cabem no vestido marrom também.

as memórias e as músicas

Ele esqueceu quase tudo na vida, menos a música.

Aconteceu em 1985. Por causa de uma infecção no cérebro, o maestro britânico Clive Wearing não consegue lembrar de nada por mais de 30 segundos. Hoje, aos 73 anos, por causa da amnésia, desconhece o próprio passado, as brincadeiras da infância, os rompantes da adolescência, os encontros de um pouco depois. Ignora os livros que leu, os filmes que viu e talvez até os morangos com açúcar [delícia] do café da manhã.

Um minuto depois de ouvir, às vezes menos, deixa para trás as histórias, um bilhete como aquele, as crônicas como esta, as notícias da TV, a imagem de sua própria casa, quase tudo. Wearing estranha até o piano que tem no quarto há 26 anos, mas basta que alguém mostre o instrumento para ele e voilá! Sua habilidade de ler partituras e tocar a peça de Haendel que aprendeu quando criança permanece intacta.

“Quando a música para, ele volta a cair no abismo. Não sabe nada sobre sua vida. Não sabe nada do que aconteceu com ele em toda sua vida”, diz a esposa  Deborah Wearing no documentário da televisão, a quem cabe a tarefa diária de mostrar o piano ao maestro, levá-lo de volta ao som que, pelo que entendi, ele sabe sem saber que sabe, lembra sem saber que sim.

O caso intriga a Ciência e estimula a imaginação. Para os cientistas, a resposta pode estar no fato de que as memórias musicais e as outras memórias ficam armazenadas em partes diferentes do cérebro: as primeiras no giro temporal superior ou nos lobos frontais [não faço a menor ideia], as últimas no lobo temporal médio. Para o resto de nós, talvez seja de outro modo.

A música, como determinadas memórias, embala o cansaço, a saudade, o apego [ou então a liberdade], a vontade [ou seu oposto], o ciúme [ou o total desprendimento]. Ameniza as faltas, ampara as perdas, incentiva a fé na lei natural dos encontros [deixar, receber um tanto, passar aos olhos nus, o mistério do planeta], na madrugada silenciosa ou então [lembra?] a fé na festa.

Vem dela a inspiração de algumas histórias, a explicação de alguns acasos, a felicidade das tardes de sábado, o embalo das faxinas e arrumações em geral, o início de alguns diálogos, um livro todo até e certas declarações de amor.

“E se pensar a gente já queria tudo isso desde o início…”

As memórias, como determinadas músicas, são aquela coisa: guardam o verdadeiro valor dos momentos, fazem a gente no dia seguinte entender a importância de certos abraços, no mês seguinte perceber o quanto gostou daquela noite, na estação seguinte assimilar as palavras do último outono.

Às vezes incomodam, machucam, mas ainda assim são aquela coisa: viver de novo e com outro olhar as mesmíssimas coisas, com outro peso [ou sem peso], quando lembra do cheiro [baunilha], da cor, dos detalhes, ou então não lembra e ri do próprio esquecimento.

Vem das memórias, como também da música, o recheio das madrugadas vazias, o ar que a ansiedade às vezes não deixa respirar direito, a certeza de que vai dar certo ou então uma pausa necessária para ver, de perto ou de longe, pela perspectiva certa, ou sua tentativa.

Vem delas o aprendizado dos dias difíceis, esforço, treino, fazer e refazer, tentar e de novo, batalhar pelo objeto do aprendizado, uma língua estrangeira, um cálculo matemático, um prato novo na cozinha, libertar o que a gente ama. Das memórias e da música, e depois lembrar delas de novo, às vezes até sem ter explicação.