pequenas esperanças

Elas são o contrário do título do romance em três volumes que Charles Dickens escreveu sobre a saga do [mais ou menos] afortunado Philip Pirrip. São econômicas como determinadas conversas deviam ser, mansas como o modo de viver daquele homem, suaves como os melhores cheiros, essenciais como um grande amor. Nascem de um detalhe, uma palavra bem colocada, uma visita, um telefonema no meio da madrugada, um encontro, um abraço, um olhar, um presente feito à mão, a própria mão encostada de um jeito bom [aquele jeito].

Às vezes até um silêncio diz delas, pequenas esperanças que a gente alimenta para conseguir superar dias difíceis e noites conturbadas, parar de chorar, voltar a sorrir e quem sabe dormir um pouco.

Elas são o contrário das expectativas desfeitas, aquelas, lembra?, de quando a gente descobre que os laços que fez não necessariamente terão final feliz, de quando a gente pensa que vai ser reconhecido no trabalho quando não necessariamente vai, de quando acredita de novo no amor apesar das desilusões anteriores [e depois outras, e de novo o amor]. Nascem no movimento ou no sossego, um feriado calmo em frente à TV ou uma seleção inteira de sons, em alto e bom volume, um depois da outro.

Às vezes até um sorriso diz delas, pequenas esperanças que a gente alimenta para conseguir levantar e seguir adiante, trabalhar, cozinhar, almoçar, lavar os pratos e quem sabe criar um pouco.

Elas são o contrário da desconfiança, aquela sensação boa de acreditar, lembra?, contar a vida inteira numa noite de conversa, votar no amigo de infância que resolveu ser vereador, entregar o joelho pro médico na sala de cirurgia, dar a chave pra faxineira, emprestar seu filho pra passear com a tia, dormir na estrada enquanto o outro dirige. Nascem vai saber de onde, vai saber por qual motivo, vai saber.

Às vezes qualquer coisa diz delas, abrir a porta de casa pros amigos que acabou de fazer, consentir o vizinho pra síndico, entregar as unhas pra manicure de alicate afiado, emprestar o vestido preferido pras amigas, dormir abraçado enquanto o outro vê o futebol, simplesmente porque confia, e muito.

Elas são como as canções que as meninas da Augusta e adjacências emprestam pra quem quiser declarar o que sente com verso e melodia, Cibelle, Marina, Anelis, Maria do Céu, Tulipa e Tiê em letra, música, amor, planos pro futuro, paisagem, verdade desde o início, certo, incerto, dançar até sem saber rodar, lugar comum.

[Queria te contar que tem espaço de sobra no meu coração].

Nascem da genética ou da bagagem, lembrança, herança, distância ou nem, capacidade de dar a volta por cima, otimismo ou coisa do tipo. São o contrário do título do romance em três volumes que Charles Dickens escreveu sobre a saga do (mais ou menos) afortunado Philip Pirrip, o contrário das expectativas desfeitas, o contrário da desconfiança. São as pequenas esperanças, que trazem cor aos tempos difíceis.

clarice lispector e o sol

- Papai, inventei uma poesia.
- Como é o nome?
- Eu e o sol
Sem esperar muito recitou:
- “As galinhas que estão no quintal já comeram duas minhocas, mas eu não vi”.
- Sim? Que é que você e o sol têm a ver com a poesia?
Ela olhou-o um segundo. Ele não compreendera.
- O sol está em cima das minhocas, papai, e eu fiz a poesia e não vi as minhocas…

as melhores noites

Às vezes elas começam de quando menos se espera, um acaso no supermercado, um pedido sem compromisso, um encontro no copo sujo da esquina, um dia inteiro de folga em que não há nada além de estar, nem relógio nem telefone nem obrigação nem agenda, nada além do encontro que faz rir, do abraço que envolve o corpo, do vinho nas taças novas, da rede na varanda, dos discos do quarto e das panelas; nada. Às vezes é o contrário, e elas se anunciam deliciosas desde o primeiro minuto, tudo planejado, marcado e combinado desde o início, como as linhas daquele romance que o professor de jornalismo usava como exemplo dos começos perfeitos.

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar a tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”.

As melhores noites têm as melhores companhias, nem que seja a gente mesmo, livro, música, as plantas à espera de poda, rega e um dedo de conversa, liberdade, lembrança, faxina, pizza e depois chocolate, ou então os amigos que chegam, uns depois os outros, pratos e copos à mesa, conversa pra mais de metro e de vez em quando as 35 doses de rum destinadas às ocasiões mais especiais da vida, como aquele cinema ensinou.

Às vezes elas são como as melhores chegadas, aquelas, lembra?, que preparam a casa para as estadas e a gente até esquece das partidas; aquelas, lembra?, que fazem dançar a dança dos dias felizes [e às vezes madrugadas], tronco leve, sorriso escancarado, disposição para a graça de qualquer coisa, a qualquer hora, brilho no olho e um efeito semelhante ao funk do balanço que tira qualquer um da fossa; aquelas, lembra?

Às vezes é o contrário, e elas se postam quietinhas no sofá, diante da TV, silenciosas e brancas como a bruma do soneto, de repente e não mais, como se o mundo estivesse inteiro livre do barulho, do trânsito e [sai pra lá] das seca-pimenteiras, como se a gente fosse eficiente o bastante, inteligente o tempo todo e sereno o suficiente para não estragar as coisas nas temporadas em que devia apenas agradecer.

As melhores noites têm o melhor cheiro, a melhor textura. São macias como parecem ser as nuvens, e de um perfume suave como aquele que fica no travesseiro [excessos no quesito deviam ser proibidos pelas leis dos homens e de Deus, para a felicidade dos elevadores e dos alérgicos. Obrigada].

As melhores noites têm a melhor cor, azul amarelo vermelho verde preto e a soma de todos os tons a serviço dos afetos, da simplicidade e do desejo, ama, come, conversa, repete, diz as palavras inventadas, ama de novo, conversa mais, repete, conta dos planos para 2012, ama de novo, conversa mais, repete. Às vezes elas são como a nostalgia dos dias da infância, levinhas e açucaradas, a foto que registrou a gente pedalando no sol como se o mundo inteiro coubesse num sol, vestido listrado e chinelinhos de tamanho 20, aquela nostalgia, sabe?.

Às vezes é o contrário, e elas se mostram impróprias para menores, velozes, quase delirantes, um pouco irresponsáveis [acontece], vodca ou vinho, rock ou samba, sozinho ou acompanhado, na rua ou em casa, publicável ou nem [acontece] e de herança, na manhã seguinte, a cabeça dói, o estômago dói, até as batatas da perna em determinadas ocasiões [vai saber] doem, mas o coração agradece. Às vezes elas simplesmente são, e terminam com a canção perfeita para uma noite perfeita, sem explicação ou exigência, sem peso ou provocação, no volume certo, no compasso certo, no tempo certo.

“Sim, tudo agora está no seu lugar
O Universo até parece conspirar pra que não seja em vão
Tanto tempo esperando esse amor…”.

As melhores noites têm as melhores trilhas sonoras.