A teoria da analista inglesa que li numa revista estes dias faz sentido. Mary Esther Harding [1888-1971, psicóloga, quarta entre os seis filhos de um cirurgião dentista do condado de Shropshire] divide a existência humana em quatro, segundo as estações do ano.
Segundo ela, até os 21 anos estaríamos na primavera, época de semeaduras e construções, nascimentos e desabrochares. Dos 21 aos 42 experimentaríamos dias e respectivas noites de verão, eles mais longos que elas, movimento e igualmente construções, só que outras.
Dos 42 aos 63 seríamos como o outono das grandes colheitas, celebrá-las e acertar os ponteiros deixados pela temporada anterior. Daí em diante, haveríamos de aturar o inverno, ar frio, céu cinza, e os bichos hibernam, a gente mete o corpo por baixo das cobertas, a noite anoitece mais cedo e às vezes cai neve.
Se entendi direito, viveríamos como flores nos primeiros tempos, infância, adolescência e chegada à maioridade feito girassóis, rosas, margaridas, tulipas, as orquídeas que serviam para dar força e virilidade aos astecas e curavam tosses e doenças pulmonares dos chineses, e as violetas que os homeopatas usam desde 1829 para combater sinusites e reumatismos.
[Às vezes tarde demais - mas antes tarde do que mais tarde - descobriríamos que faz bem ser um pouco heliotrópico, comportamento que, segundo a biologia, têm os vegetais que por motivos diversos voltam o tronco e membros para o sol].
Aos 20 e poucos e pela década seguinte moraríamos em um mundo quente como a noite da última quinta [um pouco menos abafado até que não faria mal], horário diferente, figurino leve, caipirinha de tangerina [delícia], a profusão de vermelhos e amarelos e cinzas e verdes do entardecer, compreensões e capacidades de perdoar e relativizar mais aguçadas que nunca, um cheiro diferente, e a ideia de que, entre dezembro e as águas de março, a vida pesa menos.
[Ufa].
Aos 42 e pelos próximos 21 aniversários colheríamos o resultado das semeaduras de antes, luz solar incidindo sobre o Equador na perpendicular, ambos os hemisférios igualmente iluminados, dias e noites com duração semelhante, temperaturas mais amenas, menor umidade do ar, redução de chuvas, temporada de mudar, colher e ver as folhas que caem, mais ou menos amarelas, na calçada, nas ruas e na varanda.
Como os animais, armazenaríamos o que fosse preciso durante o outono, de comida à aposentadoria, de paciência à sabedoria, de informações aos afetos mais serenos, da casa arrumada com mesa, estantes, armários e plantas aos descendentes e os descendentes deles, dos sonhos tornados reais às lembranças. E então… possivelmente… então abriríamos as portas para o rigoroso inverno dos finais, até que não houvesse mais nada.
Por que referir-se a pessoas com doenças mentais com tamanha crueldade? Louco, doido… Deixa que a sociedade incauta o faça. Os formadores de opinião, poderiam começar a pensar de forma diferente. As escolas, só as públicas, a escola particular os exclui, possui dezenas de alunos DMS, que chamamos de especias. Nós, professores, lutamos o ano inteiro para uma inclusão. E na sociedade, dita letrada, são seres que servem apenas para ilustrar uma crônica. I’m so sorry…
Gircelene, minha intenção não era tratá-lo com crueldade, muito pelo contrário. Quis escrever que o equilíbrio do homem é frágil e que as histórias de vida e a química do corpo têm sua responsabilidade no que nos tornamos. Veja que escrevi “doido SE FOR O CASO”… Pena que tenta te passado essa ideia.
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