Era a mesma frase só que em outro contexto, alguns anos separando um momento do outro, dois cenários distintos, dois personagens diferentes e a mesma verdade guardada naquelas palavras:
“Amar e libertar são o mesmo ato.”
Da primeira vez era inverno, ano ímpar e um modo sufocante de sentir as coisas, ar impuro, dor profunda, diálogos imprecisos, imobilidade, dor de cabeça, desvio de septo, ciúme em excesso, “Ne me Quitte Pas”, a poeira dos livros, os amigos que escorriam pelos dedos, o trânsito, as expectativas desfeitas, não encontros e não notícias, falta de dinheiro, um sufoco só.
Da segunda vez era verão, outro endereço e uma leveza eficiente na maneira de levar as coisas, pequenos pecados, um mundo inteiro de sambas e balanços, simplicidade e silêncio, “Ive Brussel”, os pratos da cozinha, os amigos que chegavam para celebrar, o mar, os planos para o futuro, voltar a ver o mundo com os olhos da delicadeza, uma leveza só. [Ou o quanto fosse possível dela, mesmo que nem sempre fosse].
Não se sabia [e quem é que sabe?] por quanto tempo, se apenas uns meses a mais ou a vida toda, se toda noite ou só três por semana, se a gramática, o dicionário e o novo tratado ortográfico na íntegra ou como os dogons, que acreditam ter nascido com uma quantia de palavras na barriga e, durante a vida, gastam o verbo guardado dentro com os amores, os amigos, a oposição, os irmãos e os vizinhos. Um dia, quando o estoque acaba, eles morrem.
Não se sabia [e quem é que sabe?] quase nada, apenas da força da suavidade, da virtude do silêncio, do poder do riso e do quanto fazem bem o movimento, o desapego e a confiança, aquela mesma, crença na probidade moral, na sinceridade afetiva, na promessa de dias melhores, numa história sem garantias de final feliz, na eleição da Assembleia Legislativa [ou não], na manicure de alicate afiado ou no simples ato de dormir abraçado ou fazer que dorme somente para aproveitar o braço.
Era a mesma frase, só que em outro momento, um separado do outro pelo aprendizado [dói, mas serve] de que [difícil, mas dá] agir com mais equilíbrio, pensar de modo menos sistemático e sentir com menor intensidade colaboram com qualquer conquista. Melhor que prender, afinal, é querer, ou não querer ser comida engolida acordada dormida assistida assumida cortada incluída, exatamente como naquela canção, de quem ama demais para ser prisão.
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