É um mecanismo curioso este que rege as chegadas, as estadas e as partidas.
As chegadas – esperadas ou repentinas – fazem dançar a dança dos dias felizes [e às vezes madrugadas], tronco leve, sorriso escancarado, disposição para a graça de qualquer coisa, a qualquer hora, brilho no olho e um efeito semelhante ao funk do balanço que tira qualquer um da fossa.
[É o famoso 16 toneladas].
As estadas – desejadas ou incômodas – variam de zero a dez na escala Ricther, sismógrafo, magnitude local e logarítimos a serviço da descoberta de qual medida, quanto amor, quando fim [ou se ainda não], porque dificuldades [ou as melhores possibilidades do mundo], onde dor [ou o corpo inteiro tomado de alegria, coração, pulmão e estômago inteiros cheios, de tanta felicidade], e em que quantidade cada uma dessas coisas.
As partidas, anunciadas ou surpreendentes [e até aquelas que demoram mais do que deviam, gastam a dedicação, a paciência e a pele], têm também as suas variações. Ou deixam na gente um alívio que não se descreve [um peso a menos, e uma vida inteira de esperança] ou criam um rombo que igualmente não se mede, o rombo de personagens solitários como a indiana de mapa astral ruim da página 189.
Se é verdade que o mundo tem coerência [eu desconfio], chegadas, estadas e partidas obedecem à lógica da justiça de Deus e dos homens [desconfio também], uma depois da outra. Daí, um pouco de açúcar, um pouco de álcool, a arte do diálogo, o tempo, o ar e algumas canções ajudam a embalar os amigos novos que a gente faz quando nem imagina, a vontade de estar perto contra toda a lógica do mundo, os planos para o feriado, o braço firme que envolve o corpo e o dia em que passa a não haver mais.
Em um caso, como nos outros, funciona quase sempre do mesmo jeito [menos nas exceções, que felizmente persistem até o sempre]. Primeiro aquela paz de quando você não tem muitas expectativas, depois o encontro que faz o peito parecer mais vivo, frio na barriga, desejo, prazer, presença, descoberta, delícia. A certa altura não mais prazer, não mais presença, não mais calma, pisar em ovos, tentar uma duas três mil vezes, errou, gosto amargo, dor no peito, tentativa frustrada e, depois de processos mais ou menos dolorosos e mais ou menos civilizados, desiste, joga a toalha, dobra as camisas penduradas no armário, apaga o texto, muda o contexto, acabou, até qualquer dia, em outro lugar.
Porque pessoas, coisas e afetos chegam, ficam e partem quase sempre de modo curioso, repentino e inexplicado, e quase nunca dá tempo de pintar as unhas ou os olhos, de pôr o vestido ideal ou dizer a coisa certa, de descobrir o gesto que melhor cabe ou organizar a recepção perfeita. Não dá tempo de nada, de ensaiar a palavra certa ou de abraçar o tanto que queria, fazer o café no ponto certo ou apresentar pros amigos que moram longe, não dá tempo de superar o medo, não dá tempo de nada. Não dá tempo de se acostumar à falta nem de ensaiar viver de outro jeito.
Às vezes não dá tempo nem de dizer adeus.
Nossa, eu gostaria mesmo de poder discordar disso e dizer que ainda existem coisas que podem durar para sempre.
Mas sempre tem as exceções, felizmente
“Existirmos: a que será que se destina?”
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