da série releituras

Atormentado de amor, mandei consertar os estragos da borrasca e aproveitei para providenciar muitos outros remendos que vinha demorando fazia anos por insolvência ou por indolência. Reorganizei a biblioteca, na ordem em que os livros tinham sido lidos. No fim me livrei da pianola como se fosse relíquia histórica, com seus mais de cem rolos de clássicos, e comprei um toca-discos usado mas melhor que o meu, com alto-falantes de alta fidelidade que aumentaram o ambiente da casa. Fiquei à beira da ruína mas bem compensado pelo milagre de estar vivo na minha idade.

A casa renascia de suas cinzas e eu navegava no amor de Delgadina com uma intensidade e uma felicidade que jamais conheci em minha vida anterior. Graças a ela enfrentei pela primeira vez meu ser natural enquanto transcorriam meus noventa anos. Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza.

Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco.

Gabriel García Márquez, Memórias de Minhas Putas Tristes

chegadas, estadas, partidas

É um mecanismo curioso este que rege as chegadas, as estadas e as partidas.

As chegadas – esperadas ou repentinas – fazem dançar a dança dos dias felizes [e às vezes madrugadas], tronco leve, sorriso escancarado, disposição para a graça de qualquer coisa, a qualquer hora, brilho no olho e um efeito semelhante ao funk do balanço que tira qualquer um da fossa.

[É o famoso 16 toneladas].

As estadas – desejadas ou incômodas – variam de zero a dez na escala Ricther, sismógrafo, magnitude local e logarítimos a serviço da descoberta de qual medida, quanto amor, quando fim [ou se ainda não], porque dificuldades [ou as melhores possibilidades do mundo], onde dor [ou o corpo inteiro tomado de alegria, coração, pulmão e estômago inteiros cheios, de tanta felicidade], e em que quantidade cada uma dessas coisas.

As partidas, anunciadas ou surpreendentes [e até aquelas que demoram mais do que deviam, gastam a dedicação, a paciência e a pele], têm também as suas variações. Ou deixam na gente um alívio que não se descreve [um peso a menos, e uma vida inteira de esperança] ou criam um rombo que igualmente não se mede, o rombo de personagens solitários como a indiana de mapa astral ruim da página 189.

Se é verdade que o mundo tem coerência [eu desconfio], chegadas, estadas e partidas obedecem à lógica da justiça de Deus e dos homens [desconfio também], uma depois da outra. Daí, um pouco de açúcar, um pouco de álcool, a arte do diálogo, o tempo, o ar e algumas canções ajudam a embalar os amigos novos que a gente faz quando nem imagina, a vontade de estar perto contra toda a lógica do mundo, os planos para o feriado, o braço firme que envolve o corpo e o dia em que passa a não haver mais.

Em um caso, como nos outros, funciona quase sempre do mesmo jeito [menos nas exceções, que felizmente persistem até o sempre]. Primeiro aquela paz de quando você não tem muitas expectativas, depois o encontro que faz o peito parecer mais vivo, frio na barriga, desejo, prazer, presença, descoberta, delícia. A certa altura não mais prazer, não mais presença, não mais calma, pisar em ovos, tentar uma duas três mil vezes, errou, gosto amargo, dor no peito, tentativa frustrada e, depois de processos mais ou menos dolorosos e mais ou menos civilizados, desiste, joga a toalha, dobra as camisas penduradas no armário, apaga o texto, muda o contexto, acabou, até qualquer dia, em outro lugar.

Porque pessoas, coisas e afetos chegam, ficam e partem quase sempre de modo curioso, repentino e inexplicado, e quase nunca dá tempo de pintar as unhas ou os olhos, de pôr o vestido ideal ou dizer a coisa certa, de descobrir o gesto que melhor cabe ou organizar a recepção perfeita. Não dá tempo de nada, de ensaiar a palavra certa ou de abraçar o tanto que queria, fazer o café no ponto certo ou apresentar pros amigos que moram longe, não dá tempo de superar o medo, não dá tempo de nada. Não dá tempo de se acostumar à falta nem de ensaiar viver de outro jeito.

Às vezes não dá tempo nem de dizer adeus.

das coisas que a gente aprende com as flores

É fato: pouca coisa no mundo lembra delicadeza e doçura de modo tão imediato quanto as flores. Diante das flores, a gente pensa em açúcar, afeto e gentileza, aprende sobre a espera, a regadura e o melhor dos remédios [Drummond dizia, com toda razão, que entre a raiz e a flor há o tempo], entende o ritmo, a suavidade e as possibilidades da natureza, percebe o caminho, o processo e o movimento das sementes. Diante delas, a gente coleciona lições.

Com os girassóis, a gente conclui que os dias azuis e amarelos sorriem mais [e a gente sorri com eles] e decide que faz bem ser um pouco heliotrópico, comportamento que, segundo a biologia, têm os vegetais que por motivos diversos se voltam para o sol.

Com as rosas, descobre o devagar da vida, a sutileza do toque, a importância do cheiro, o machucado do espinho e o cuidado, uma pétala depois da outra e às vezes os ais. [E ainda tem o Rosa, nome próprio com nome de flor, que escreveu que o mais bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que vão sempre mudando].

Com as margaridas, percebe os capítulos que a vida cria em torno de outros capítulos, o branco, o amarelo e o laranja dispostos em círculo, um depois do outro, capazes de trazer de volta um pouco da inocência das crianças, bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer.

Com as tulipas, sonha com o amor perfeito e estuda até um pouco de geografia quando contam que elas vieram da Turquia, não da Holanda. [E tem ainda a Tulipa, nome próprio com nome de flor, que canta de um modo bonito a baladinha da moça que teu ar displicente invade o espaço e ela cai no laço exatamente do jeito – um crime perfeito!].

Com as orquídeas, ingrediente da bebida que dava força e virilidade aos astecas e curava tosses e doenças pulmonares dos chineses, a gente acolhe o que é elegante, exótico e sensual, e treina um pouco do verbo cultivar: quanto de luz, rega moderada e adubação periódica com substratos apropriados, um diferente para cada fase do desenvolvimento.

Por fim, com as violetas, que os homeopatas usam desde 1829 para combater sinusites e reumatismos, a gente pinta de colorido a casa de paredes brancas e enfeita as estantes com a espécie que jardineiros, paisagistas e floristas acreditam ser o símbolo da lealdade e da modéstia, três meses de descanso e depois flores outra vez, exatamente como Cecília Meirelles escreveu que seria, girassol, rosa, margarida, tulipa, orquídea, violeta e gente:

“Aprendi com as primaveras
A deixar-me cortar
E voltar sempre inteira”.

[Texto do catálogo da mostra Floreiros, que celebra a chegada da Primavera, na Galeria Ana Terra, em Vitória]

ou não

Uma pequena homenagem aos contraditórios [acontece]

Meu amigo olhou em volta e garantiu que, ali, éramos todos igualmente contraditórios, eu, ele, a aniversariante da noite, a dupla da televisão, o músico que sorria de dentro, o sujeito dos olhos claros que eu não conhecia, o menino que parecia cada vez mais indiferente ao outono passado [e nada melhor que o tempo pra sermos, de fato, indiferentes], o trio de preto da mesa da esquerda, o cara atrás do balcão e talvez até o garçom de nariz torto que nos trazia cervejas a tempo, mas demorava com as batatas. Éramos todos contraditórios como o novo acordo ortográfico, os kiwis, as boas obras de arte e a maioria dos amores.

Falávamos do fato de que não dá pra ter as unhas feitas e ser uma boa dona de casa ao mesmo tempo, ter montes de livros na estante sem sofrer de alergia, ter frio na barriga e estabilidade na mesma história, ser boêmio e dormir as horas que a pele exige pra ser bonita, e eu pensava no peso que é precisar decidir a toda hora entre um e outro, posse ou liberdade, apego ou bom senso, amor de tirar o fôlego ou outra coisa que se possa suportar, fim doloroso para histórias de começo encantador ou a calma das palavras sem brilho, se guardar dinheiro nos fundos de renda fixa ou “melhor queimar tudo agora do que desaparecer aos poucos”.

Pensava em como é torto querer tudo e, um minuto depois, nada; dizer que nunca mais e querer pra sempre um minuto depois; sentir dor no peito, no olho e no cotovelo e ao mesmo tempo saudade de quem causa essa mesma dor, desejar enquanto estraga. Pensava em como é torto chorar de felicidade, alimentar os sonhos de sossego e os anseios de independência, comer quando não tem fome, dormir para que as horas corram e o dia seguinte traga exatamente a mesma dor, a mesma saudade, o mesmo estrago, o mesmo choro, a mesma falta de fome e sentido que cansa mais que todo o resto.

Pensava que talvez de fato a gente dissesse, fizesse, sentisse e defendesse no momento seguinte exatamente o oposto do que havíamos dito, feito, sentido e defendido um pouco antes, e que talvez por isso fosse tão difícil entender e explicar o outro e a gente mesmo, dividir e conviver, enxergar e fechar os olhos, amar e libertar, uma coisa e outra juntas no mesmo ato, mesma frase, mesma história.

Porque as contradições talvez sejam uma das maiores pragas e, ao mesmo tempo, um dos troços mais encantadores da convivência humana, prender, desprender, ir, voltar, sair, entrar, encontrar, desencontrar, querer, abandonar; o silêncio da composição de John Cage e as sete mil palavras que, segundo uma pesquisa, uma mulher diz num único dia (os homens, só pra constar, pronunciam cerca de duas mil, segundo o mesmo estudo); ter um amor que ao mesmo tempo amarra e liberta, viver num mundo de movimento e permanência, sonhar e pagar as contas, tanta coisa e tantas outras que só mesmo o fato de sermos tão contraditórios ajuda a explicar.

Ou não.

carta aberta a amy winehouse

[um texto de maio de 2008, para celebrar a aniversariante de hoje]

Querida Amy,

Meu ex-vizinho costuma dizer que você é a mulher ideal: canta bem, tem estilo e [o que é melhor, na opinião dele] bebe junto. Verdade que o seu beber junto ultrapassa, e muito, os limites estabelecidos pelo bom senso e pela Organização Mundial das Mentes Sãs em Corpos Sãos, e que o resto da sua vida acompanha o [des]ritmo. Mas você, dona encrenca, é cool até o caroço.

O Zé tem razão, Amy. Você é demais. Matou de cara a charada de que o amor é um jogo perdido, aprendeu na marra que às vezes precisa morrer uma centena de vezes, entendeu que talvez devesse ter crescido um pouco mais sensata e o quanto é difícil colocar as coisas em ordem com a sua [dele] voz na minha [sua] cabeça.

“What kind of fuckery is this?”.

Fico com dó quando você aparece completamente estragada nas revistas, com seus modelões anos 60, de flor no cabelo e tudo, e umas olheiras absurdas, uma magreza escancarada, a saúde oca à flor da pele. Mas gosto quando você debocha da sua estupidez, quando confessa seus vícios, quando chora os amores frustrados acabada no chão da cozinha, quando celebra a boemia que, de um jeito torto, dá sentido a sua vida – e [pode palavrão?] – foda-se o resto.

“Depois do último, acho que é impossível um homem me magoar.
Não dói a sério, é só incrivelmente irritante”.

Boto fé, Amy.

Porque o fim de determinados amores de fato irrita mais que dói, e nessas horas, minha amiga, fica difícil saber o que fazer com o Diário do Futuro Compartilhado, porque não há mais futuro, muito menos partilha; com o retrato do sorriso azul, porque não há mais retrato, muito menos azul; com as afinidades inquestionáveis que num momento eram decisivas e no outro não servem pra mais nada; com aquela coleção de mensagens inapagáveis que você lê e relê enquanto não consegue dormir; com a saudade absurda que franceses, chineses, paquistaneses e dinamarqueses sequer têm no dicionário e a gente sente que é uma beleza.

Sabe, Amy, você me lembra [a comparação é bizarra, eu sei, mas não me sai da cabeça] uma musiquinha do QI de Abelha que diz assim:

“Sou capaz de gritar
E de te ofender
De me machucar
Mas não de te esquecer
Sou capaz de chorar
Ser ridícula até não agüentar
Posso bater com a cabeça na parede
Posso fingir que não sou inteligente
Posso pensar em vingança e traição
Gosto de ser cruel
Pra chamar sua atenção
Eu faço o que você quiser
Pra agradar seu coração”

Tenho a impressão, vendo de longe, que você é dessas, Amy. Acho que você às vezes exagera, mas concordo que de vez em quando é preciso meter os pés na jaca, chorar e espernear, com o objetivo pouco nobre, mas de certo modo corajoso e inevitável, de dizer o que é preciso ao coração de um cara.

É cruel, Amy. Mas – você sabe – faz parte. Você sabe.

leitura para uma noite de vento frio

Crônica com Endereço Certo
Carmélia Maria de Souza, fevereiro de 1968

Além do mais, Dindi, este é um momento dos mais importantes e de coisas graves. Não adianta dizer que a vida não passa disto mesmo o tempo todo – sei que isto não vai consolar, não vai servir para nada.

Acontece, porém, que não saberei falar outra coisa, eu nunca soube falar as coisas que deveria falar – você me conhece bem, você sabe como sou imbecil, tímida, completamente desajeitada. Nunca soube comprar uma roupa para mim e estou ficando cada dia mais desorganizada nessa questão de objetos, pessoas, correspondências, horários. Sou, enfim, sou uma pessoa distraída e tresloucada, um caso perdido, uma pobre diaba.

Viver, para a pessoa que eu sou hoje em dia, é esta aflição imutável, é este desespero de perder tudo, de repente descobrir que tudo voltou aos devidos lugares. Este viver de abrir os braços e dar a impressão muito falsa de que estou sempre preparada para o que der e vier. No fundo, você sabe, sou medrosa e covarde como o diabo. E embora não pareça, tenho a alma atormentada e não me conformo com nada. Não sou, portanto, a pessoa indicada para estar ao seu lado neste momento – você escolheu a companhia completamente errada.

Todavia, não irei embora. Vou agüentar firme aqui mesmo, enquanto puder e você me quiser perto, assim como estamos agora.

Falar mesmo a verdade, eu só sei andar por aí, viver às escâncaras, beber vinho, nunca ter dinheiro e falar das minhas saudades. Adoro, Dindi, estas ruas da noite, este silêncio – você acertou, quando disse que eu era a primeira dama da madrugada. Foi na madrugada que aprendi a amar muitas coisas. Que aprendi a distância que existe entre uma flor e uma estrela e, ao mesmo tempo, a hora de as trazer reunidas, por causa do momento que lhes deu o mesmo significado.

Não me ensinaram a falar palavras que consolem, todavia, é neste momento que eu sofro imensamente por não saber dizer a você, aquilo que você tanto precisa ouvir. Me lembro, inclusive, de um momento muito antigo, daquela tarde de setembro, quando eu deveria ter dito sim e disse sim… Quando deveria ter feito o gesto que não fiz e fiquei em silêncio, vendo tudo se perder.

Mas vou tentar alguma forma de acertar desta vez com você. Vou lhe pedir para não se preocupar com estas bobagens que tanto preocupam você. Vou procurar convencer você de que o drama não chega a ser drama, por que é que você vive assim? Não ligar, Dindi, ainda é a melhor solução.

Se isto puder servir de algum consolo, saiba que, enquanto for preciso, eu estarei sempre aqui. É bem verdade que tenho a alma esbagaçada e venho de muita dor. Mas me sinto contente, apesar da poeira desta estrada triste e comprida de onde vim, me sinto contente, porque ela me trouxe até você – você, criança eterna e querida, em cujos olhos ainda amanhece todos os dias. E por mais que eu chegue tarde a estas manhãs, por mais que eu traga as minhas culpas e as minhas dores nestas mãos, aqui continuará sendo dia e eu também poderei ser criança alguma vez, com o meu vestido cor-de-rosa, como se fosse sempre domingo.

Não sofra tanto. É domingo.