Alguém já disse, com toda razão, que viajar é ótimo, mas voltar é melhor ainda.
Faz bem voltar pra casa, ponte, escada, praça, parede, quarto, estante, o Retrato do Artista Quando Jovem à espera de concentração, os discos displicentes à espera das madrugadas, as madrugadas em si e os silêncios que a gente exalta, abraça, investe, porque são, de fato, ótimos investimentos. Faz bem voltar pro endereço antigo, pra família que aguenta a gente até quando nem gente aguenta, pros velhos camaradas com quem a gente senta na Lama e ri até a hora em que os olhos (ou o fígado e às vezes o cérebro) não podem.
Faz bem voltar pros afetos, pros botecos da Praia, pros almoços de domingo e aquele macarrão com frango à milanesa (delícia) que tem na mesa desde tanto tempo que nem sei. Faz bem voltar pro samba gingando uma noite no Cais do Hidroavião e outra na esquina da São Francisco (desculpa, Deus), o Zeca (o que ele quer é vadiar?), o Geraldo, o Angenor, o Nelson, o João, o Noel, a Ivone, os Jorges, o Chico, o Martinho (que bom é ser fotografado pelas retinas daqueles olhos lindos), o Adoniran e o Alfredo ensinando como a gente deve levar a vida (e como a gente deve, às vezes, deixar ela levar a gente).
Faz bem voltar pras plantas da varanda, o verde difuso delas à sombra do Mestre Álvaro, o jeito com que parecem sorrir quando acordam com o dia ensolarado, como se o mundo todo coubesse num sol (e não cabe?), uma fila inteira delas ou então o jardim de Paris em que Hemingway e eu, em séculos diferentes, passeávamos a nós mesmos. Faz bem voltar pro pastel da feira no sábado, pras praças que a bicicleta sabe quais são (ou não sabe, mas descobre), pro bom dia do vizinho e aquele açúcar emprestado que a gente nunca devolve.
Faz bem voltar pro braço firme que envolve o corpo, pro modo silencioso que tem todo o encanto do mundo, pras palavras inventadas que às vezes escapam, pro movimento que às vezes escapa igual (quando a gente para de brincar e mexer o coração ao invés de bater padece). Até pras diferenças que parecem maior do que as possibilidades às vezes (mas nem sempre) faz bem voltar, voltar pra esperança de tudo se ajeitar (pode esquecer?), pra vontade que não cabe na gente (e vai ver nem precisa mesmo caber), pro desejo de estar perto toda noite, menos nos dias de futebol, pescaria e Desperate Housewives.
Faz bem voltar pros sonhos que a gente alimenta com imaginação ou conversa, como aquele da casa na Cidade Alta que fomos ver embora nenhum de nós pudesse comprá-la, 12 quartos, 300 mil, quintalzão e varanda, azulejo antigo, biblioteca, cozinha e banda, numa manhã em que era preciso sonhar com qualquer coisa que não fosse pagar as contas, entregar os textos no prazo, abastecer minimamente a despensa ou dobrar a pilha de roupas que brotavam do pufe amarelo.
Faz bem voltar e ver de longe, sentada no vento que bate na Ilha, os escândalos no Vaticano, o terremoto no Chile, os rumores de Genebra, a tempestade na China, o alvoroço na Argentina, o mundo inteiro, estrangeiro, distante e sedutor como o sujeito que anda como se dançasse ao som de um compasso imaginário que mistura Marvin Gaye com Cartola, The Shine of Dried Electric Leaves com a música feita nas calçadas da Havana ou nas esquinas de Porto Rico, Chet Baker com Marina de la Riva, Jorge Ben com Julieta Venegas e uma pitada a mais de malandragem.
Faz bem voltar e, na volta, decidir o que deve guardar e o que deve jogar fora, varrer, espanar, ajeitar, remexer, rodopiar, inverter, derramar Pinho Sol, água sanitária, detergente, lustra-móveis e desapego, um desapego tão bom que estende o prazo de validade da própria vida. Faz bem estender o prazo de validade da própria vida, cair na estrada com o espírito de recomeçar, redefinir ou redecorar, ser estrangeiro e um pouco anônimo, estar longe de qualquer rota confortavelmente conhecida, cheirar a liberdade, a solidão, as possibilidades e as descobertas, e depois voltar.
Porque alguém já disse, com toda razão, que viajar é ótimo, mas voltar é melhor ainda.
Eu tô indo… Oxalá!
Vai ser, no mínimo, inesquecível.
Sou um jabuti. Gosto de ter a casa nas costas. O cheiro dos meus cães. O meu colchão meio esburacado (ai meu Deus!), a minha marmita na sacola ecológica. Gosto da mesma esteira na academia, do mesmo ônibus para o trabalho, de chegar no horário, de separar a roupa de noite. Só viajo na condição de levar essas coisas nas costas, de carregar eu mesma comigo. Coisa de tradição. Sinto-me tão livre em mim na estrada quando sei que tudo que sou está, só um pouquinho, à disposição da itinerância.
Beijo Ana Laura. Você, como sempre, um mar de letras sensíveis..
kiki
Obrigada, bonita. Bom ter você e sua casa nas costas por aqui, viu?
Pingback: dia de feira « terceiro
Pingback: saídas II « terceiro
Pingback: sobre vontades « terceiro
Pingback: amigo é todo dia, inclusive hoje « terceiro
Pingback: parceiros « terceiro
Pingback: viagens « terceiro
Pingback: das coisas pequenas « terceiro
Pingback: dias, meses, páginas « terceiro
Pingback: carta aberta (2) à finada amy winehouse « terceiro