sobre a simplicidade

Talvez seja o verão, ou então a bicicleta, o cardápio à base de legumes, chocolate e Coca Cola, a pintura nova das paredes, as mudanças no armário, a rima da moda segundo a qual não precisa sofrer para saber o que é melhor para você. [Não mesmo]. Talvez sejam as celebrações, ou então a própria vida, as canções, as boas companhias, os parceiros que suavizam com seu afeto as ausências mais doídas, dizem com seus silêncios as verdades mais fundas, ocupam com sua presença os inevitáveis escuros, emolduram com sua compreensão as angústias que insistem. Talvez sejam os astros.

Talvez seja o contexto, trocar o endereço, cometer pequenos pecados, sambar e balançar um mundo inteiro de sambas e balanços, investir em simplicidade e silêncio, “Ive Brussel”, os pratos da cozinha, os amigos que chegam para celebrar, um sorrisão a qualquer hora simplesmente porque sim, uma viagem anotada na agenda, o resto dos planos para o futuro, voltar a ver o mundo com os olhos da delicadeza, tanto quanto possível, mesmo que nem sempre. Talvez seja o texto, um trecho tão bonito quanto certeiro, perdido numa entrevista qualquer:

“Quanto maior me faço, mais simplifico minha vida”.

Talvez seja o filme da terça passada, o sujeito de meia idade às voltas com uma traição que precisava ser digerida, uma criança e dois adolescentes mais ou menos desajustados, a esposa num coma sem volta, uma vida inteira de muito trabalho, pouco luxo e contenções em excesso, o mundo todo prestes a desabar sobre seu cabelo cinza. Matt King, o personagem central de “Os Descendentes”, podia ser eu, você, o vizinho do andar de cima, qualquer um. Quando corre desajeitado pelas ruas do ensolarado balneário em que vive, resume os caminhos de quem tenta, do mesmo modo desajeitado, correr atrás de respostas. Quando rebola para se aproximar das duas filhas, materializa as barreiras que, cada um de nós, uma ou mais vezes, enfrentou diante de uma conversa – ou da falta dela.

Quando sai em busca do amante da mulher moribunda, faz rir de tão igual aos que [quem nunca, uma vez que seja?] vasculharam Facebook, Orkut, Twitter, Sonicos e o que mais em busca de evidências ou nem. Quando varia entre vender ou não o imenso terreno virgem e paradisíaco herdado dos avôs, desperta a dureza que é estar dividido entre as posses e o desapego, o dinheiro e as raízes, a ambição e a beleza. Quando grita com a mulher inerte e, no momento seguinte, é todo ternura, joga luz sobre descontrole e no momento seguinte o sossego, as ofensas e logo o arrependimento, a loucura e, passado o caos interior, a paz. Quando beija a esposa do amante da sua esposa, revela as contradições da dor de cotovelo.

[Doi do cóccix até o pescoço].

Talvez seja Matt King, ou vai ver são os legumes, as celebrações, as canções, o contexto ou o texto. Talvez sejam os astros ou então o verão o responsável pela vontade recorrente destes dias: leveza, calma, simplicidade, aquela, lembra?, que numa destas ironias da vida a gente trabalha duro para encontrar. A estação mudou, mas a tarefa é a mesma: aprender a lição do músico de barbas brancas, exercício e imprevisto, ensaio e improviso, estabilidade e movimento, poesia e cálculo, tempo e imaginação, fé e bom senso, equilíbrio e rompante, como o músico ensinou que podia haver, a gente atingindo a liberdade que permite improvisar quando trabalha muito, e com muita disciplina.

a lição dos buldogues

Buldogues franceses não precisam de grandes espaços para serem felizes. Vivem em lugares pequenos, próximos e leais aos donos daquele afeto todo. Sim, buldogues franceses são afetuosos por natureza. Segundo consta, o pior dos castigos pra eles é a solidão.

Buldogues franceses são engraçados, suaves, bem-humorados, apesar de aparentemente marrentos. Preferem as horas mais frescas do dia ou então a calma do sofá. Segundo consta, são cães de pensamento solto: fazem as coisas do modo como bem entendem, mas naquele modo levinho de que são feitas as tortas que escapam da receita, determinados encontros e as tardes de domingo.

Ponto pra eles.

Buldogues franceses são em geral silenciosos, quase preguiçosos. Preferem o repouso ao excesso de movimento, latem pouco [ufa], gostam de servir e de experimentar novos sabores. Segundo consta, precisam de contato constante com humanos.

Buldogues franceses brincam sempre que possível, como deve ser, em certos momentos, a postura minha, sua, de todos nós. Ou não é exatamente como aquele outro texto?, rir apesar das ausências, dançar a dança dos dias felizes das perdas, levar ao pé [literalmente] da letra a lição gingada do mestre Jorge Ben segundo a qual quando você para de brincar de mexer seu coração, ao invés de bater, padece.

Buldogues franceses são livres como a cronista de óculos grossos e coração apertado escreveu que era [ou queria ser] – livre para rir ou chorar, lembrar ou esquecer, sentir saudades de ontem e, ao mesmo tempo, construir os mais belos planos para o dia de amanhã, livre para desenhar o rosto do amor dela apesar de não saber desenhar e porque já não corria o risco de vê-lo chegar de repente e se botar cinicamente a rir do seu sentimento e do desenho dela. Segundo consta, a cara achatada dos buldogues franceses exige respiração pausada e um pouco de sombra, distância da água e toques sutis. Buldogues franceses adoram um cafuné.

[Como não?].

Envelhecem rápido. Segundo consta, aos 12, 13 anos, estão próximos do fim da linha, mas mantêm a alegria e a liberdade dos primeiros tempos. Com Bilbo, o buldogue francês sobre o qual escreveram estes dias numa revista, foi assim. Um dia, dois veterinários diagnosticaram que ele tinha pouco tempo de vida. Disseram que seu coração era do tamanho da caixa toráxica e que seus rins não funcionavam bem. Receitaram remédios, ração especial, manhã, tarde e noite de privações e limites.

Ele detestou, emagreceu, ficou tão mau-humorado e deprimido que seus donos decidiram deixá-lo em paz para que fosse feliz, mesmo que durante pouco tempo. Livre das pílulas de velho e da comida de doente, Bilbo voltou a viver como um buldogue francês típico, adepto do riso e da suavidade.

É a lição, mesmo que involuntária, instintiva, animal. Saudar mais a vida que a morte, mais o riso que a doença, mais a dança que as restrições, como devemos também fazer, sempre que possível. Respirar, sorrir, cuidar, respeitar, uma mão, gentileza, afeto, um pouco do tempo que anda cada vez mais escasso, aquilo tudo. Em lugares pequenos, com os afetos por perto, bom humor e pensamento solto, a calma do sofá, sabores novos e as tortas que escapam da receita.

do instante que passa

“[...] Me sinto bem aqui em cima, inclusive, para esquecer os puristas da língua pátria e não ligar para a maldita ordem em que devem ser colocados os pronomes. Que se danem os mestres. Muito mais importante que as regras gramaticais é a maneira pela qual a gente consegue, nesta deliciosa desordem, misturar as palavras e fazer da última flor do Lácio inculta e bela um meio gostoso de se comunicar. Me sinto, portanto, capaz de fazer tremer até o Eça de Queiroz, mas eu vou colocar os meus pronomes onde bem quiser.

E tem mais: aqui eu sou livre para rir ou chorar; para lembrar ou esquecer; para sentir saudades de ontem e, ao mesmo tempo, construir os mais belos planos para o dia de amanhã. Livre para desenhar o rosto do meu amor, apesar de não saber desenhar, porque já não corro o risco de ver você chegar aqui de repente e se botar cinicamente a rir do meu sentimento e de mim. 

É verdade que o tempo tem sido curto. Mas também não tenho sentido a menor vontade de sair. Tenho ficado em casa todas as noites; há dias não vou ao encontro da corja. Ontem mesmo houve pessoas muito queridas que estiveram por aqui. Queriam saber de mim, como é que me vou arranjando. Vou me arranjando bem, graças a Deus. E, para que eu esteja melhor, é preciso que essas pessoas voltem sempre, pois aos amigos eu confiei uma parte de minha felicidade preguiçosa, que às vezes gosta de cochilar. É importante, então, que vocês não a deixem dormir, que estejam perto, vigiando todos os dias, cada vez mais íntimos, mais amigos, mais irmãos. Dispostos ao momento da amizade, das mãos dadas, das coisas do coração.

É pensamento que me vem, enquanto fico procurando por vocês, em cada um destes objetos que constituem uma parte da minha vida, da minha vida que vocês valorizaram, e que acabei de acomodar entre as paredes desta casa: livros, jornais, revistas, algumas roupas, muitos sapatos, uma máquina de escrever, um berimbau que guardou ternura de tantas noites e poeira das estrelas que morreram no céu, para nunca mais. Um radiozinho que se recusa a falar. Alguns discos que variam de Bach a Aznavour, um coelhinho azul e tímido, uma cobrinha chamada Mildred, que tem medo de temporal [...].”

Mais uma Crônica do Instante que Passa
Carmélia Maria de Souza, 1967

carta aberta (2) à finada amy winehouse

Querida Amy,

Passei a noite ouvindo seu disco póstumo. Fazia aquele calor abafado de quando a chuva prepara seu próximo estrago [a situação por aqui não anda nada boa, viu?, desabrigados, deslizamentos, enchentes, uma cidade toda embaixo da água, a mãe obrigada a escolher qual dos filhos salvar diante da casa submersa, porque eram três e só havia dois braços...].  Já era 2012 e, apesar do anunciado e garantido, o mundo [ufa] continuava como sempre esteve, mais ou menos firme e mais ou menos forte.

Quando a primeira canção começou a tocar, pensei nos que se foram igualmente cedo como você, e nos que ao contrário chegaram daquele modo bom: dança dos dias felizes e às vezes madrugadas, tronco leve, sorriso escancarado, disposição para qualquer coisa, a qualquer hora, brilho no olho e um efeito semelhante ao funk do balanço que tira qualquer um da fossa. Chegaram, felizmente, decididos a ficar.

Embalada pela sua música, parei diante do que defendia o cronista na página 78 daquela revista, a respeito de muitos de nós vivermos angustiados pela percepção de que os outros, todos, absolutamente todos, vivem felizes e bem resolvidos enquanto a gente nem sempre e nem tanto. A verdade, ele diz e acho que você concordaria, é que nenhum de nós vive feliz e bem resolvido o tempo inteiro, inclusive [talvez principalmente] aqueles que fazem questão de aparentar sucesso e felicidade em período integral.

Precisamos de ajuda, ele escreve, Amy, porque não sabemos morrer [você cantou que morreu uma centena de vezes, não?], porque não sabemos lidar com a morte dos outros, não sabemos nos concentrar, relaxar, sustentar relações positivas ou superar hábitos destrutivos. Segundo o escritor da página 78 daquela revista, não sabemos direito sequer como aprender.

[Taí um dos verbos mais bonitos do mundo, pelo menos do meu: aprender, transitivo, regular, aprendendo no gerúndio, aprendido no particípio, aprender no infinitivo, compreender algo ou alguém pela técnica ou pela sensibilidade, pela repetição ou pela experiência, pelo exemplo acertado ou justo o oposto].

Quando a quarta canção começou a tocar, e diante do calor abafado de quando a chuva prepara seu próximo estrago, do anunciado e garantido, das chegadas e do escritor da página 78, lembrei da primeira carta aberta que te escrevi, Amy, dois ou três anos atrás [seriam quatro?].

Você já havia determinado que o amor era um jogo perdido, que talvez devesse ter crescido um pouco mais sensata e o quanto era difícil colocar as coisas em ordem com a voz dele na sua cabeça. Em mais de uma ocasião, havia debochado da sua estupidez, confessado seus vícios e as horas em que chorou pelos amores frustrados no chão da cozinha. [Acontece, Amy, acontece].

Quando a décima primeira canção começou a tocar, pensei na vida breve que você teve e na imensa herança que deixou com sua música. Pensei naquela segunda-feira de janeiro, o palco, a plateia, a pizza, o Rio de Janeiro, as boas companhias e as alegrias do regresso. Pensei no tanto que veio depois, e de repente era já a décima segunda, a última, sobre lugares, o tempo, indelicadezas, segredos preciosos e a estrofe final que, a esta altura, Amy, soa assustadoramente profética:

“Quando minha vida acabar, lembre-se de quando estávamos juntos. Estávamos sozinhos e eu estava cantando essa canção para você”.

dias, meses, páginas

O exercício se repete, ano depois de ano. A alguns dias da virada, a tarefa é passar a limpo a agenda do ano velho [e em alguma medida a própria vida], remarcar aniversários, tipo sanguíneo, praça, número e código de endereçamento postal, e-mail e telefones de emergências, olhar pra trás, avaliar projetos, feitos e desejos a partir de um calendário com espiral e uma dúzia de anotações a lápis ou caneta em cores. Depois é seguir em frente.

É um ritual, como talvez seja boa parte dos rituais, tão simbólico quanto significativo, mesmo que o Quintana diga que as segundas-feiras, os primeiros dias de cada mês e os Primeiros de Ano sejam apenas uma ilusão de que as coisas se renovam.

["Que seria de nós se a folhinha marcasse hoje o dia 713.789 da Era Cristã?"].

Deve-se escolher as canções certas, escancarar as janelas escancaradas, deixar lápis e borracha a postos, e também os projetos, as metas e os sonhos. Devem igualmente estar na ponta da língua as orações ao grandioso e bom Deus para que, outra vez e sempre, torne as presenças constantes e as ausências amenas, perdoe os deslizes, desconte as faltas, alivie os excessos, mantenha a paz e instaure o equilíbrio de uma vez por todas.

Uma página depois da outra, é hora de organizar os 12 meses seguintes, pensar nas coisas feitas, nas não feitas e nas desfeitas, rever 365 [às vezes 6] dias de anda, para, muda e desmuda, sente e dessente, promete e despromete, faz Pilates pra coluna torta, vai ao cardiologista pro coração cansado, pinta a parede pros olhos felizes, compra cortina, compartilha a vida inteira, sente saudade, anota, telefona, espera, escolhe, encolhe, chora, ri, bebe, levanta, canta.

Precisa de tempo e paciência, 30, 50, muitos minutos de retrospecto, atividade, reunião, filmes, discos, livros e um mundo inteiro descoberto ou revisto, a Amy ao vivo e logo depois nunca mais, a bailarina e o exato momento em que a razão se perde de si mesma, Barney Panofsky e toda a verdade sobre o amor guardada em 132 minutos de cinema, todo sentimento por aí, cozinhar, rezar, passar por cima de uma escolha difícil de esquecer, querer continuar Aquário quando mataram Plutão e mudaram os signos, por pra tocar as meninas da Augusta e os de sempre, o Roberto, o Caetano, o Gil, a Elis, o Tom, o Baden, o Paulinho, o Jorge, o João e o Chico, inclusive o novo.

“Mas só se for agora
Venha ouvir sem mais demora”.

Precisa de atenção e zelo, cinco, dez, algumas notas de planejamento, filmes, discos, livros e um mundo inteiro desejado ou previsto, uma viagem, os 90 anos da vó, um documento a ser assinado, um desafio no trabalho, voltar a pedalar, viver as madrugadas do mesmo jeito bom, batalhar pela manutenção do encanto diante do mundo, dos encontros, das descobertas e da arte.

Precisa de atenção e zelo, três, quatro noites em busca da próxima saída, rezar um pouco mais, Santa Rita, Santo Expedito, Nossa Senhora da Penha, Ana ou Aparecida, São Bento de Núrsia, Santo Antônio ou então direto com o Homem, sem intermediários [lembra?], serenidade, saúde, sabedoria, um caminho bom para os queridos, uma cura ou um milagrezinho, sossego, Senhor tirai as minhocas desta cabeça amém.

É um ritual – não custa repetir – tão simbólico quanto significativo, mesmo que o Quintana diga que as segundas-feiras, os primeiros dias de cada mês e os Primeiros de Ano sejam apenas uma ilusão de que as coisas se renovam.

desapego

Chega a ser irônico que a mesma temporada em que uns compram enlouquecidamente inspire outros a jogar fora, doar, vender pro sebo, colocar em exposição no bazar do final da rua. É tarefa para várias noites: diminuir a pilha de livros à espera das traças, de vestidos que há algum tempo deixaram de cair bem, de panelas e garfos e facas que não servem, de rancores, lembranças e histórias que o coração não quer e o estômago não aguenta.

Estou dentro.

Olho, por exemplo, o vestido marrom de uns três ou quatro invernos atrás. O corte é elegante, tecido de primeira, figuras geométricas em preto espalhadas por toda a sua extensão, viés na cintura, zíper nas costas, destaque para o espaço originalmente destinado ao balanço das cadeiras e algumas memórias guardadas nele, uma noite, uma companhia, um presente delicado, uma cidade inteira e uma certeza: dificilmente vou caber outra vez ali dentro.

[Que dó].

Olho então as estantes do quarto dos livros, arrumadinhas [ou semi]. Os de jornalismo vivem numa prateleira, os romances na outra, os latinos em uma, os sobre música em outra. As aquisições recentes à espera de tempo e dedicação estão em uma, as revistas e jornais em outra, em ordens diversas que estabeleço vai saber como [a gente se entende], as caixas de lápis, canetas e post-its, tesoura, cola, caderno [adoro], telefone, caixa de som, fotografias, aquilo tudo, em contante construção.

Olho os discos que há algum tempo não compramos mais e as exceções – o Chico novo, o Moska duplo, a Tulipa porque isso é o que o amor faz, o Jeneci e ainda um pouco do novo samba que se faz por aí, porque a vida [lembra?] é pra se levar como o Geraldo, o Angenor, o Nelson, o Heitor, o João, o Noel, o Baden, a Ivone, o Jorge, a Clementina, o Adoniran e o Alfredo ensinaram, cobertos de razão e ainda hoje, que era para levar.

Olho para trás, exatamente como a época inspira: escolha, decisão, definição, mudança, aprendizado, felicidade, madrugada, promessa, caminho; um ano bom apesar das faltas que cheiram à indiferença e dos desapontamentos que parecem movidos pela pura vaidade; um ano bom, apesar dos deslizes, dos arroubos, das deslealdades; um ano bom, apesar dos pesares.

Chega a ser irônico que a mesma temporada em que uns compram enlouquecidamente inspire outros ao desapego, ao árduo trabalho de deixar o superficial para cada vez mais abrir espaço ao fundamental, escolher, organizar, descartar, mudar. É difícil, mas funciona. O planeta agradece. A alergia, a faxineira, os desabrigados pela chuva e as amigas magras que cabem no vestido marrom também.

as memórias e as músicas

Ele esqueceu quase tudo na vida, menos a música.

Aconteceu em 1985. Por causa de uma infecção no cérebro, o maestro britânico Clive Wearing não consegue lembrar de nada por mais de 30 segundos. Hoje, aos 73 anos, por causa da amnésia, desconhece o próprio passado, as brincadeiras da infância, os rompantes da adolescência, os encontros de um pouco depois. Ignora os livros que leu, os filmes que viu e talvez até os morangos com açúcar [delícia] do café da manhã.

Um minuto depois de ouvir, às vezes menos, deixa para trás as histórias, um bilhete como aquele, as crônicas como esta, as notícias da TV, a imagem de sua própria casa, quase tudo. Wearing estranha até o piano que tem no quarto há 26 anos, mas basta que alguém mostre o instrumento para ele e voilá! Sua habilidade de ler partituras e tocar a peça de Haendel que aprendeu quando criança permanece intacta.

“Quando a música para, ele volta a cair no abismo. Não sabe nada sobre sua vida. Não sabe nada do que aconteceu com ele em toda sua vida”, diz a esposa  Deborah Wearing no documentário da televisão, a quem cabe a tarefa diária de mostrar o piano ao maestro, levá-lo de volta ao som que, pelo que entendi, ele sabe sem saber que sabe, lembra sem saber que sim.

O caso intriga a Ciência e estimula a imaginação. Para os cientistas, a resposta pode estar no fato de que as memórias musicais e as outras memórias ficam armazenadas em partes diferentes do cérebro: as primeiras no giro temporal superior ou nos lobos frontais [não faço a menor ideia], as últimas no lobo temporal médio. Para o resto de nós, talvez seja de outro modo.

A música, como determinadas memórias, embala o cansaço, a saudade, o apego [ou então a liberdade], a vontade [ou seu oposto], o ciúme [ou o total desprendimento]. Ameniza as faltas, ampara as perdas, incentiva a fé na lei natural dos encontros [deixar, receber um tanto, passar aos olhos nus, o mistério do planeta], na madrugada silenciosa ou então [lembra?] a fé na festa.

Vem dela a inspiração de algumas histórias, a explicação de alguns acasos, a felicidade das tardes de sábado, o embalo das faxinas e arrumações em geral, o início de alguns diálogos, um livro todo até e certas declarações de amor.

“E se pensar a gente já queria tudo isso desde o início…”

As memórias, como determinadas músicas, são aquela coisa: guardam o verdadeiro valor dos momentos, fazem a gente no dia seguinte entender a importância de certos abraços, no mês seguinte perceber o quanto gostou daquela noite, na estação seguinte assimilar as palavras do último outono.

Às vezes incomodam, machucam, mas ainda assim são aquela coisa: viver de novo e com outro olhar as mesmíssimas coisas, com outro peso [ou sem peso], quando lembra do cheiro [baunilha], da cor, dos detalhes, ou então não lembra e ri do próprio esquecimento.

Vem das memórias, como também da música, o recheio das madrugadas vazias, o ar que a ansiedade às vezes não deixa respirar direito, a certeza de que vai dar certo ou então uma pausa necessária para ver, de perto ou de longe, pela perspectiva certa, ou sua tentativa.

Vem delas o aprendizado dos dias difíceis, esforço, treino, fazer e refazer, tentar e de novo, batalhar pelo objeto do aprendizado, uma língua estrangeira, um cálculo matemático, um prato novo na cozinha, libertar o que a gente ama. Das memórias e da música, e depois lembrar delas de novo, às vezes até sem ter explicação.